Relatório Técnico


A Associação Brasileira de Química, promove a cada ano uma série de eventos que tem como objetivo desde a difusão da química em seu estado da arte, até a capacitação de profissionais por cursos ministrados ou a troca de conhecimento e novas técnicas e estudos desenvolvidos com palestras, mesas-redondas, painéis, workshops, proporcionando o intercâmbio entre profissionais do exterior e de vários estados brasileiros.

Dentre os eventos realizados com este propósito, foi realizado nos dias 16 e 17 de abril de 2009 no Centro de Tecnologia e Geociências da Universidade Federal de Pernambuco, na cidade de Recife, o 2º BIOCOM – 2º SIMPÓSIO NACIONAL DE BIOCOMBUSTÍVEIS.

O evento, realizado pela segunda vez, é um investimento da ABQ em um tema novo, com grande repercussão nacional e que tem atraído a atenção de pesquisadores e indústrias em razão da necessidade de novas tecnologias limpas, levadas adiante pelo encarecimento do custo do petróleo e ainda mais pela brutal queima de combustíveis gerando o colapso de nossa camada de ozônio. Muito se tem estudado nos últimos anos alternativas para os combustíveis em geral sendo o biocombustível uma das melhores possibilidades que se apresenta.

O Simpósio que é anual teve em sua segunda versão, prova em números que veio para ficar, superando a primeira versão em quantidade de trabalhos aprovados e em número de participantes. Foram aprovados 42 trabalhos este ano contra apenas 10 no primeiro ano.

O evento teve seu início no dia 16 de abril pela manhã contando em sua mesa de abertura com a presença da representante do Prefeito de Recife, da Secretária de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de Recife, Sra. Anita Dubeux, do representante do Reitor, Pró-Reitor de Extensão da UFPE, Prof. Dr. Ivan Melo, do Diretor do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE, Prof. Dr. Edmilson Lima, do Presidente do Conselho Federal de Química, Prof. Dr. Jesus Miguel Tajra Adad, além da Presidente do BIOCOM, Profa. Dra. Silvana Carvalho de Souza Calado, e o Presidente da ABQ, Químico Newton Mario Battatini.

Em suas falas os presentes foram unânimes em se congratular com a UFPE e a ABQ pela iniciativa de promover o evento tanto por sua importância científica, como pelo momento atual de pesquisas e desenvolvimento que o setor vem tendo.

Em seguida a abertura solene ocorreu a primeira palestra ministrada pelo Engenheiro Alberto Fontes Junior, Diretor da Petrobrás Biocombustíveis, subsidiária da Petrobrás criada no ano de 2008 com o propósito na pesquisa e desenvolvimento da área. Ele falou sobre o Programa de Biocombustíveis no Brasil.

Seguindo-se a ele, outras duas palestras mantiveram os presentes atentos e dando margens, assim como na primeira, a um numero enormes de perguntas e questionamentos, tal a qualidade técnica dos palestrantes: Profa. Dra. Maria Cristina Espinheira Saba do CENPES – Centro de Pesquisas da Petrobrás que falou sobre o Desenvolvimento Tecnológico dos Biocombustíveis e a Profa. Dra. Cristiane Zulívia de Andrade Monteiro da Agencia Nacional de Petróleo que falou sobre o Controle de Qualidade em Biocombustíveis. Segundo os presentes foi uma manhã que já representaria um evento inteiro.

Ainda neste dia, na parte da tarde, ocorreram a palestra do Prof. Dr. Napoleão de Macedo Beltrão da Embrapa Algodão e da UFCG que falou sobre a questão dos Alimentos versus Biocombustíveis. Seguindo-se a um painel sobre os Desafios dos Biocombustíveis tendo como apresentadores a Dra. Cristiane Zulívia de Andrade Monteiro da ANP, Prof. Dr. Nelson Medeiros Lima Filho da UFPE e o Prof. Dr. Rafael Silva Menezes do SETEC do Ministério da Ciência e Tecnologia.

No dia seguinte, 17 de abril, o dia foi aberto com a seção de pôsteres apresentando os trabalhos aprovados, com destaque para a enorme quantidade de pesquisas desenvolvidas na obtenção de biocombustíveis a partir de diferentes matérias primas. Vale a pena uma visita ao endereço do evento onde encontram-se os trabalhos apresentados (www.abq.org.br/biocom/histórico).

Após a seção de pôsteres, a primeira palestra foi do Prof. James Correa de Melo do CETENE-MCT sobre a Atuação do CETENE na área de Biocombustíveis em Pernambuco e a seguir a visão do SINDAÇUCAR – Sindicato dos Produtores de Açúcar e Álcool, discorrendo sobre O Brasil e o Mercado Internacional de Etanol, apresentando pelo Engenheiro Tiago Delfino Carvalho Filho.

Em seguida ocorreu uma palestra internacional Eficiência na Síntese de Biocombustíveis Aumentando a Compreensão dos Processos Através de Reatores Automáticos de Laboratório proferida pela Dra. Leen Schellekens da Mettler Toledo AutoChem Inc. dos Estados Unidos.

Para fechar o evento com chave de ouro, apresentaram-se o Prof. Dr. José Dilcio Rocha da Embrapa Agroenergia com a fala sobre Pirólise de Biomassa para Produção de Biocombustíveis e o painel Problemas Associados à Produção e de Co-produtos de Biocombustíveis onde falaram o Prof. Dr. Arnaldo Cesar da Silva Walter da UNICAMP, Prof. Dr. Donato Alexandre Gomes Aranda da EQ-UFRJ e Prof. Dr. Luiz Pereira Ramos da UFPR.

O evento contou com a presença de 146 pessoas. O número de estudantes ficou quase idêntico ao número de profissionais. Havia representantes de todas as regiões brasileiras, com um grande número de participantes do Tocantins, Sergipe, Rio Grande do Norte. Por este motivo, os Organizadores concluíram que o evento atingiu a quase todo o Brasil, uma vez que estiveram presentes na cidade de Recife representantes do Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sul oriundos de vários estados.

A ABQ considera o resultado do 2º BIOCOM de forma bastante motivadora e já garantiu a realização das duas próximas versões em abril de 2010 e 2011, desta feita na cidade do Rio de Janeiro.

Ao término do BIOCOM foi liberada a Carta de Recife II – Biocombustíveis com recomendações sobre o setor. A mesma será enviada aos órgãos do governo que tratam do assunto.

CARTA DE RECIFE II – BIOCOMBUSTÍVEIS

Profissionais e pesquisadores da área de biocombustíveis reunidos em Recife nos dias 16 e 17 de abril de 2009 por ocasião do 2º BIOCOM – 2º Simpósio Nacional de Biocombustíveis, evento anual que teve em sua segunda versão, prova em números que veio para ficar, superando a primeira versão em quantidade de trabalhos aprovados e em números de participantes, foi promovido pela Associação Brasileira de Química e Departamento de Engenharia Química da UFPE, que após discutirem os principais assuntos ligados a área, tais como matérias-primas, desafios tecnológicos, controle de qualidade, mercado internacional e problemas associados à produção de co-produtos de biocombustíveis, observaram os seguintes aspectos:

  1. Focar as atividades de P&D em projetos integrados que contemplem toda a cadeia de valor dos biocombustíveis, desde a sustentabilidade das matérias-primas, passando pelos processos de produção, agregação de valor aos co-produtos, garantia da qualidade no uso, transporte e armazenamento dos bio-combustíveis.

  2. Estudar o fim dos leilões públicos e a transição para o mercado livre de biodiesel, como forma de estimular o aumento da produção e de evitar o transporte deste combustível por longas distâncias, como ocorre atualmente.

  3. Manter um programa de investimento para capacitação da rede de laboratórios para análise da qualidade do biodiesel, similar ao que ocorreu em 2007/2008.

  4. Estimular o desenvolvimento de novos processos para produção de biodiesel a partir de matérias-primas de baixo custo com elevada acidez e uso do etanol.

  5. A solução para uso da glicerina produzida pelo biodiesel deve ser múltipla, sendo necessário o estudo de diversas rotas de aproveitamento deste co-produto. Os processos que partem da glicerina bruta, não purificada, podem ter maior vantagem econômica.

  6. Estimular o desenvolvimento de novos processos de obtenção de combustíveis de segunda geração e outros produtos alto valor agregado a partir da biomassa residual, através da rota com uso de processos térmicos (pirólise e gaseificação) e da rota de hidrólise enzimática da lignocelulose.

  7. Promover o mapeamento e caracterização dos resíduos agro-industriais, agrícolas e urbanos para aproveitamento na fabricação de bio-combustíveis.

  8. Promover a implantação de plantas demonstrativas de processos termoquímicos, como a pirólise ou gaseificação de biomassa, para a produção de bio-combustíveis.

  9. Otimizar os processos existentes e garantir que os novos processos de produção de bio-combustíveis sejam mais limpos, com baixo consumo de energia e de água e mínima geração de resíduos. Os processos devem eliminar a formação de resíduos perigosos ao homem e ao meio ambiente.

  10. As pesquisas devem ter medidas de controle que tornem o ambiente de trabalho seguro e salubre, com ênfase na prevenção de acidentes e de doenças.

  11. O uso de microalgas para produção de biodiesel deve ser estudado com ênfase nos fotobioreatores e na produção em escala piloto para a obtenção de dados confiáveis para uma avaliação técnico-econômica adequado do processo.

  12. O estudo do pinhão manso visando a produção de biodiesel deve ser acelerado para obtenção de variedades adequadas ao nosso clima antes de se iniciar o plantio em larga escala.

  13. O estado deve estimular o cultivo de espécies não alimentícias, como a mamona, em consórcio com espécies alimentícias, com benefício para a produtividade de alimentos e com renda extra ao agricultor na venda das sementes de mamona.