O FAZER E O COMPREENDER CIÊNCIAS: UM OLHAR DE BRUNO LATOUR PARA O DISCURSO E OS JARGÕES UTILIZADOS POR ESTUDANTES DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA.

ISBN 978-85-85905-10-1

Área

Ensino de Química

Autores

Silva, R.R.C. (CEFET-MG) ; da Costa Lima, A. (CEFET-MG)

Resumo

Neste trabalho, aplicamos as teorias de Bruno Latour na análise da linguagem utilizada por estudantes de iniciação científica de uma específica área de conhecimento da química, a fim de encontrar as controvérsias e incertezas da prática científica, mediante o uso de expressões que são muito utilizadas mas nem sempre compreendidas. A análise do discurso destes estudantes se baseou no esquema de classificação dos tipos de enunciados de discursos científicos elaborado por Bruno Latour e Steve Woolgar no livro A Vida de Laboratório: A Produção dos Fatos Científicos. Assim, o presente trabalho visa encontrar as controvérsias e incertezas na prática científica.

Palavras chaves

Iniciação Científica; Bruno Latour; Prática Científica

Introdução

Analisou-se a linguagens e conceitos de estudantes de iniciação científica que trabalham com a luminescência do íon európio III para elucidação estrutural. Um dos objetivos deste trabalho foi verificar se os estudantes de iniciação científica (IC) realmente entendiam algumas expressões por eles utilizadas em resumos de congresso. Estas expressões, chamadas de jargões, são muito utilizadas na específica área do conhecimento, comumente encontradas em diversos artigos científicos. Utilizamos as teorias de Bruno Latour para tentar desvendar e abrir as caixas-pretas do “universo” dos cientistas, de forma a encontrar controvérsias e incertezas da prática científica, além de analisar o discurso dos estudantes de iniciação científica através do esquema de classificação dos tipos de enunciados de discursos científicos elaborado por Bruno Latour e Steve Woolgar, no livro A Vida de Laboratório: A Produção dos Fatos Científicos. Um dos motivos que nos incentivaram a pesquisar sobre o assunto, foi a maneira comumente utilizada na comunicação científica, encontrada nos artigos científicos, que se torna uma caixa-preta para aqueles que não são iniciados no meio. Compartilhamos o desejo de Latour de abrir a caixa-preta criada, quando o mesmo diz: “Afora as pessoas que fazem ciência, que a estudam, que a defendem ou que se submetem a ela, felizmente existem algumas outras, com formação científica ou não, que abrem as caixas-pretas para que os leigos possam dar uma olhadela.” (LATOUR, 2000, p.34). O presente trabalho visa corroborar com a etnografia utilizada por Latour e Woolgar em A Vida de Laboratório, onde os autores criticam a ausência de contradição no discurso científico.

Material e métodos

Foi realizada uma pesquisa nos arquivos on-line das reuniões mais recentes da SBQ (Sociedade Brasileira de Química), de trabalhos que utilizavam a luminescência do Eu3+ para elucidação estrutural. Identificados os trabalhos, foram selecionados aqueles que tivessem como primeiro nome, estudantes de IC e que constasse no trabalho um endereço eletrônico (e-mail) para contato. Foram enviados e-mails para os estudantes, para que os mesmos pudessem responder alguns questionamentos sobre expressões utilizadas por eles nos resumos enviados para o respectivo congresso. Quatro estudantes de iniciação científica participaram da pesquisa. Todos eles pertencem a grupos de pesquisa que trabalham com a luminescência de elementos terras-raras, sendo o íon Eu (III) um deles. A análise da linguagem utilizada pelos estudantes nos resumos e as repostas aos questionamentos, se baseou no esquema de classificação dos tipos de enunciados de discursos científicos elaborado por Bruno Latour e Steve Woolgar, no livro A Vida de Laboratório: A Produção dos Fatos Científicos.

Resultado e discussão

Analisando a resposta do estudante ao questionamento 1, observa-se que há uma repetição empírica de termos comumente encontradas em textos científicos da área. Em muitos destes textos, cita-se quais transições ocorrem por dipolo elétrico e quais ocorrem por dipolo magnético. Porém, ao ser indagado sobre a origem destes termos, o estudante não soube explicar. Estes nomes são tão comuns na específica área de conhecimento, que não é necessário uma explicação. De acordo com o esquema de classificação dos tipos de enunciados do discurso científico proposto por Latour e Woolgar, pode-se classificar os termos transição por dipolo elétrico e por dipolo magnético como enunciados do tipo 6, que de tão comuns, estão implícitos e subentendidos. Já em relação ao questionamento 2, podemos observar que existem algumas expressões comumente encontradas nos artigos científicos que são tidas como adquiridas e não precisam de explicação. Estas expressões são classificadas por Latour como enunciados do tipo 5. Em relação ao questionamento 3, percebe- se no discurso adotado pelo estudante um caráter bem didático e explicativo. Na análise de Latour, este tipo de discurso se enquadra nos enunciados do tipo 4. Vale ressaltar que este tipo de enunciado não são comuns em artigos e textos científicos. São algumas vezes encontrados apenas nas seções introdutórias dos artigos. Em relação ao questionamento 4, observa-se o enunciado do tipo 1, onde encontramos claramente o caráter especulativo, sem qualquer precisão, nas expressões eu acredito e eu acho. Observa-se também, mais um exemplo típico da utilização de expressões sem sua devida compreensão.

Quadro 1

Algumas respostas dos estudantes de IC aos questionamentos

Quadro 2

Classificação dos enunciados científicos segundo Latour

Conclusões

Este trabalho teve por finalidade, desvendar o discurso exclusivo daqueles que fazem a ciência e mostrar que a linguagem utilizada pelos cientistas nem sempre é compreendida por eles mesmos. Como os textos científicos são tão valorizados na prática da ciência, por que não nos atentarmos mais com o seu conteúdo? Em sua obra, Latour salienta a valorização e imposição de se produzir um documento escrito no laboratório. Sugere-se que os estudantes de IC e seus respectivos orientadores possam discutir além de metodologias e resultados, expressões comumente utilizadas, mas nem sempre compreendidas.

Agradecimentos

Agradecemos aos estudantes de IC que se propuseram a responder nossos questionamentos. Ao CEFET-MG por todo apoio financeiro e de trabalho.

Referências

LATOUR, B. e WOOLGAR, S. A vida de laboratório; a produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1997.
LATOUR, B. Ciência em Ação: Como Seguir Cientistas e Engenheiros Sociedade Afora. São Paulo, Editora UNESP, 2000.

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