• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

ESTABILIDADE DO pH DE DIFERENTES BLENDS DE NONI COM UMBU E CAJÁ ESTOCADOS A FRIO

Autores

Araújo, E.E.S. (IFRN/CA) ; Medeiros, A.C.M. (IFRN/CA) ; Melo, J.C.S. (IFRN/CA) ; Maia, J. (IFRN/CA) ; Lima, F.C.S. (IFPE) ; Silva, S.C.P. (IFRN/CA) ; Badaró, A.D.S. (IFRN/CA)

Resumo

A pesquisa teve por objetivo estudar a estabilidade do pH de diferentes blends de noni com umbu e noni com cajá, elaborados com e sem pasteurização, estocados durante 180 dias a -6ºC. Foram realizadas análises de pH de acordo com a metodologia do Instituto Adolfo Lutz (2008). Ao fim da estocagem, verificou-se que o pH de noni e umbu, com e sem pasteurização, tiveram uma variação de 2,55 (NU1*) a 3,19 (NU3*), considerados seguros do ponto de vista microbiológico. Do mesmo modo, os blends elaborados com o noni e cajá, com e sem pasteurização, variaram de 2,65 (NC1*) a 3,20 (NU3). O processo de estocagem sob congelamento se mostrou bastante eficaz para a manutenção do pH nas formulações, apresentando-se como um processo eficaz no armazenamento dos blends.

Palavras chaves

Noni; Blends; pH

Introdução

Na indústria, a procura por sabores diversificados é grande. Isso tem levado as empresas a desenvolverem novos produtos para atender a essa demanda (BRANCO et al., 2007). A formulação de blends de polpas de frutas é um recurso que vem sendo bastante utilizado na indústria alimentícia, pois combina as propriedades físico-química e organolépticas entre duas ou mais frutas, melhorando os atributos nutricionais e sensoriais, promovendo um produto de maior aceitação pelos consumidores (ADEDOKUN et al., 2022). Nesse sentido, segundo Correia et al. (2017), a elaboração de blends de frutas permite que novos produtos sejam criados com características diferentes de acordo com o perfil do consumidor que se deseja atingir. Além disso, os blends surgem como uma alternativa de minimizar os excedentes na época de safra e agregar valor aos frutos da região (GADELHA et al., 2019). No tocante a polpa de noni, esta apresenta potencial de atividade anti- inflamatória, antimicrobiana e antioxidante, que a faz funcionar como um eficiente suplemento alimentar, no entanto, possui um cheiro forte desagradável (LEE et al., 2020; ALMEIDA, OLIVEIRA e HOTZA, 2019). Desse modo, é importante estudar o comportamento da polpa de noni na elaboração de blends, a fim de promover um produto aceitável pelo consumidor. Para isso, uma opção para elaborar os blends com a polpa de noni seria utilizar polpas de frutas nativas da região norte e nordeste do Brasil, como a polpa de umbu e a de cajá, que são frutas endêmica da caatinga do nordeste brasileiro, identificado por serem frutos suculentos, de aroma forte e por possuir uma marcante acidez. Segundo Mattietto et al. (2007), o cajá (Spondias lutea L.) e o umbu (Spondias tuberosa Arr. Câmara) são dois frutos bastante conhecidos e apreciados no Norte e Nordeste brasileiro, com grande potencial para industrialização e, quando misturado em um único produto, colabora para a agregação de valor na agroindústria brasileira. Assim como as polpas de frutas, os blends devem preservar as qualidades nutricionais, organolépticas e microbiológica, durante a sua vida de prateleira. Portanto, a aplicação do congelamento, que é um método de conservação mais utilizado para a polpa de fruta, surge como uma opção para estudar a estabilidade dos blends durante o seu armazenamento. Dentre os vários parâmetros que podem ser estudados para a avaliação da estabilidade de bebida durante o armazenamento, tem-se o pH, que se destaca pela capacidade de limitação dos tipos de microrganismos capazes de se desenvolver em um alimento, exercendo influência sobre o crescimento, a sobrevivência ou a destruição destes microrganismos (SILVA, 2000). Segundo Silva et al. (2005), valores de pH superiores a 4,5 podem favorecer o crescimento do Clostridium botulinum. Nessa perspectiva, encontram-se vários trabalhos relatando a importância do estudo da estabilidade da polpa de fruta, dos néctas e dos blends através das suas propriedades físico-química, como por exemplo, o pH, como se observa nos trabalhos de Shamsudin, Zulkifli e Zaman (2020), os quais estudaram a mistura de abacaxi e manga; por Mattietto et al. (2007), ao estudarem o armazenamento do néctar misto de cajá e umbu e por Modesto Junior et al. (2016) no estudo sobre o armazenamento de polpa do fruto ginja (Eugênia uniflora L.). Portanto, o objetivo desse trabalho foi estudar a estabilidade do pH de diferentes blends de noni com umbu (NU1, NU2, NU3, NU1*, NU2* e NU3*) e noni com cajá (NC1, NC2, NC3, NC1*, NC2* e NC3*) durante um período de 180 dias de estocagem.

Material e métodos

Para a realização da pesquisa, as frutas foram adquiridas no comércio local, na cidade de Caicó-RN. Em seguida, foram levadas ao laboratório de Química do Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN – Campus Caicó para serem higienizadas e processadas. Os frutos foram higienizados com a solução de hipoclorito de sódio a 50ppm, durante 15 minutos, e selecionados de acordo com sua integridade. Após as polpas serem processadas, foram preparadas 3 formulações em duplicatas de blends de noni e umbu (NU1, NU2 e NU3) e noni com cajá (NC1, NC2 e NC3), nas seguinte proporções de polpa: NU1 - 10% de polpa de noni e 90% de polpa de umbu, NU2 - 30% de polpa de noni e 70% de polpa de umbu, NU3 - 50% de ambas as polpas, NC1 - 10% de polpa de noni e 90% de polpa de umbu, NC2 - 30% de polpa de noni e 70% de polpa de umbu, NC3 - 50% de ambas as polpas. Continuando o processo, as formulações dos blends de noni com umbu (NU1, NU2 e NU3) e noni com cajá (NC1, NC2 e NC3) sem pasteurização, foram separadas e submetidas à pasteurização lenta e denominadas (NU1*, NU2* e NU3*) e (NC1*, NC2* e NC3*), respectivamente. Na fase de pasteurização lenta, utilizou-se o binômio 80 °C, por 30 minutos (em banho maria). As amostras de blends foram acondicionadas em potes de poliestireno opacos, em porções de 250 g e armazenadas a –6 °C por 180 dias. A análise de pH foi realizada com o Peagâmetro, de acordo com a metodologia recomendada pelo Instituto Adolfo Lutz (2008). Vale salientar que todas as análises foram realizadas em triplicata e para o cálculo, utilizou-se a média dos valores obtidos, os quais foram avaliados com o auxílio do programa computacional Assistat, versão 7.7 Beta (SILVA & AZEVEDO, 2009).

Resultado e discussão

Nas Tabelas 1 e 2, representadas a seguir, tem-se os valores médios de pH das diferentes formulações de dois tipos de blends (noni com umbu e noni com cajá), com e sem pasteurização, armazenados durante 180 dias. Nota-se que os valores de pH das formulações dos blends de noni e umbu, com e sem pasteurização, variaram de 2,55 (NU1*) a 3,19 (NU3*), inferior a 4,5, sendo considerados seguros do ponto de vista microbiológico, por ser classificado como um alimento muito ácido. Nessa faixa de valores de pH (pH < 4,5), o desenvolvimento microbiano e atividade enzimática dos alimentos são reduzidas (SILVA et al., 2020; GADELHA et al., 2019). De acordo com os resultados, percebe-se que os valores médios do pH da formulação NU1 do blend de noni com umbu não pasteurizados tenderam a diminuir durante o armazenamento, enquanto que os valores de pH das formulações NU2 e NU3 apresentaram tendência a aumentar ao longo do armazenamento. Após o final do armazenamento, comparando os valores iniciais e finais do pH, verificou-se que os percentuais de oscilações dos valores das formulações foram de 0,77% (NU1), 9,06% (NU2) e 0,95%(NU3). Nesse sentido, Modesto Junior et al. (2016) ao estudarem o armazenamento de polpa do fruto ginja (Eugênia uniflora L.) durante um período de dois meses sob congelamento a -18 ºC, observaram que não houve um decréscimo significativo no pH. No tocante aos valores de pH das formulações pasteurizadas, apenas a formulação NU3* (1,27%) apresentou tendência de aumento ao longo do armazenamento, enquanto que as formulações NU1* e NU2* não apresentaram diferença estatística. Machado et al. (2019) observaram que os valores de pH para a polpa de physalis não pasteurizada e pasteurizada variaram durante o armazenamento, porém ao se comparar o tempo zero e após 120 dias de armazenamento, os valores não diferiram estatisticamente. Pelos resultados, observa-se na Tabela 2 que os valores de pH das formulações dos blends de noni com cajá, com e sem pasteurização, variaram de 2,65 (NC1*) a 3,20 (NU3), os quais permaneceram inferiores a 4,5 durante todo armazenamento, indicado a estabilidade desse parâmetro. Percebe-se, ainda, que os valores médios das três formulações dos blends não pasteurizados não apresentaram alterações significativas até os 90 dias de armazenamentos. No entanto, ao completar os 180 dias de armazenamento, os valores de pH das formulações sem pasteurização diminuíram em 6,18% (NC 1), 4,41% (NC 2) e 3,44% (NC 3) quando comparados aos valores iniciais. Em relação aos valores médios de pH das formulações de blends pasteurizados, observam-se na Tabela 2 que os valores apresentaram pequenas oscilações ao longo do armazenamento, porém, ao comparar os valores iniciais com os valores obtidos após 180 dias, percebe-se que as formulações NC1*, NC2* e NC3*, variaram de 2,26, 1,05 e 1,28%, respectivamente. Nesse contexto, Mattietto et al. (2007) ao estudarem o armazenamento do néctar misto de cajá e umbu, submetido à pasteurização térmica (90 °C/60 s), observaram que, durante os 90 dias de armazenamento, o pH variou de forma expressiva apenas nos 30 dias iniciais, depois ocorreu discreto aumento e permaneceu sem alterações significativas. Isso também foi observado por Ribeiro et al. (2017) quando desenvolveram estudos relacionados a estocagem do suco de umbu durante 90 dias, perceberam que os valores de pH apresentaram um ligeiro aumento.

Tabela 1 – Valores médios de pH dos blends de noni com umbu



Tabela 2 - Valores médios de pH dos blends de noni com cajá



Conclusões

Diante dos dados obtidos, conclui-se que no estudo do armazenamento sob congelamento das formulações dos blends de noni com umbu e noni com cajá, ocorreram pequenas oscilações nos valores médios de pH, das amostras com e sem pasteurização. O uso dos frutos tropicais, em particular, o umbu e o cajá, na elaboração de blends com noni, permitiram obter um produto com valores de pH adequados capaz de garantir a segurança alimentar das formulações estudadas, além de ser uma alternativa viável para utilização de frutos perecíveis, agregando maior valor econômico ao produto.

Agradecimentos

Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, Campus Caicó, pelo apoio financeiro concedido à pesquisa.

Referências

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