• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

Efeito da evolução adaptativa de leveduras em meio suplementado com selenito de sódio sobre o acúmulo de trealose

Autores

Mota, L.A. (CENA/USP) ; Silva, A.P.M. (ESALQ/USP) ; Oliveira, M.R.B. (ESALQ/USP) ; Pinto, A.U. (ESALQ/USP) ; Almeida, G.M.L.L. (ESALQ/USP) ; Faria, T.M. (ESALQ/USP) ; Baptista, A.S. (ESALQ/USP) ; Arthur, V. (CENA/USP)

Resumo

O selênio (Se), um microelemento indispensável ao ser humano, pode ser bioacumulado em levedura. Uma elevada absorção, porém, pode gerar mudanças na fisiologia da célula, principalmente nos seus carboidratos de reserva. O objetivo do trabalho foi quantificar a trealose em células cultivadas em altas concentrações de Se. Foi feita uma adaptação da levedura Saccharomyces cerevisiae, seguida do cultivo em meio YEPD com concentrações: 0 mg/L (T1); 200 mg/L (T2) e 400 mg/L (T3) de selenito de sódio (Na2SeO3). Os parâmetros analisados foram trealose e viabilidade celular. Como resultado, o T1 acumulou mais trealose e apresentou maior viabilidade celular. Conclui-se que, mesmo com a evolução adaptativa, as leveduras reduzem a sua capacidade de acumular a trealose e manter a viabilidade.

Palavras chaves

Carboidratos de reserva; Trealose; Leveduras

Introdução

O Se é um microelemento indispensável ao organismo humano. Está envolvido no sistema imunológico, no combate a danos oxidativos, através da enzima glutationa peroxidase. É integrante de mais de 30 selenoproteínas e ajuda na prevenção de algumas doenças, como diabetes e alzheimer. Além disso, atua em processos biológicos, como biossíntese mitocondrial do ATP (SURAI, 2018). Tradicionalmente, o Se é disponibilizado na dieta através de alimentos como carnes e vegetais (KIELISZEK, 2019). No entanto, o teor de Se varia e, em algumas regiões, pode chegar a ser insuficiente. A dose diária ideal desse elemento para um ser humano adulto é estabelecida em 55 µg por dia, para atuar normalmente nos processos bioquímicos e fisiológicos. Com o intuito de melhorar a biodisponibilidade desse micronutriente, leveduras, que são utilizadas como fonte de suplementação, sendo cultivadas e adaptadas em meio enriquecido com altas concentrações de Se, uma vez que esses microrganismos são capazes de incorporar microelementos em biomoléculas, acumulando-os em concentrações elevadas (PEDRERO e MADRID, 2009). Essa incorporação elevada, porém, pode gerar algumas mudanças no metabolismo da célula devido ao estresse que é gerado, principalmente dos seus carboidratos de reserva, como a trealose. Esse dissacarídeo aumenta a viabilidade celular, inibindo a autólise, através da estabilização da estrutura da membrana, atuando como um protetor contra o estresse (GENÇ, 2020). Por esse motivo, o objetivo deste trabalho foi quantificar a trealose em células de levedura cultivadas em altas concentrações de Se e entender como esse fator de estresse interfere no acúmulo de trealose e sobre a viabilidade celular das leveduras, após ter realizado um processo de adaptação evolutiva.

Material e métodos

Cultivo das leveduras Primeira etapa: o processo adaptativo da levedura Saccharomyces cerevisiae, linhagem Thermosacc, foi realizado em placa de Petri com YEPD suplementado, inicialmente com 200 mg L-1 de Na2SeO3, sendo realizado o acréscimo gradativo de 4 mg L-1 por ciclo até a concentração máxima de 400 mg L-1. Segunda etapa: as células foram cultivadas em meio YEPD líquido (6% de glicose) suplementado com 0 mg/L (T1) - Controle; 200 mg/L (T2) e 400 mg/L (T3) de Na2SeO3. Os tratamentos foram realizados em quadruplicatas, temperatura de 28˚C sob agitação de 130 rpm. O cultivo iniciou com 100 mL de mosto em Erlenmeyer de 500 mL e inoculado com 3% de levedura. A cada 24 horas, o meio de cultivo era removido através de centrifugação e um novo meio de cultivo com o dobro de volume era adicionado, totalizando 120 h de experimento. Extração e Quantificação de Trealose A análise de trealose das leveduras foi realizada após 120 h da inoculação, de acordo com a metodologia descrita por Trevelyan & Harrison (1956). A extração foi realizada com o ácido tricloroacético 0,5 M. Sendo utilizada a centrífuga Kasvi®, a 3000 rpm por 5 minutos, o sobrenadante obtido foi destinado para a quantificação pelo método de Antrona descrito por Brin (1966). Em seguida, foram adicionados 0,3 mL da amostra e 0,3 mL da solução de antrona nos tubos de ensaio, para então homogeneizar e colocar em banho-maria por 10 minutos. Após deixar esfriar, foi realizada a leitura a 620 nm. Viabilidade celular A viabilidade celular das leveduras foi determinada de acordo com a metodologia descrita por Pierce (1970), na qual foi utilizada solução de azul de metileno 0,1% e as contagens das células vivas e mortas foram realizadas em câmaras de Newbauer, por microscopia óptica.

Resultado e discussão

Como resultado, obtivemos que as leveduras submetidas ao tratamento T1 foram as que apresentaram o maior acúmulo de trealose, com 0,84 ± 0,03% m v-1 (massa seca). Já as leveduras submetidas aos tratamentos T2 e T3 obtiveram 0,17±0,01 e 0,47±0,01% m v-1 (massa seca), respectivamente (p<0,05). Os resultados obtidos suportam a hipótese de que a presença de altas concentrações de Na2SeO3 no meio de cultivo, foi um fator limitante ao crescimento das leveduras submetidas aos tratamentos T2 e T3. Por consequência foi observado que nessas condições as leveduras apresentaram menor acúmulo de trealose e se multiplicaram mais lentamente. No tocante à viabilidade celular, as leveduras submetidas ao T1 apresentaram a maior viabilidade, com 62,46 ±0,02%, enquanto as submetidas ao T2 e T3 apresentaram 39,42±0,01% e 50,77±0,01% de viabilidade, respectivamente (p<0,05). Estes resultados corroboram com aqueles apresentado no trabalho de Kieliszek et al. (2020), no qual relataram que a função da trealose é proteger e estabilizar as membranas. Porém, quando as células de levedura encontram-se em um meio de cultivo com elevadas concentrações de Se, que possam danificar a estrutura da membrana, alterando a composição dos ácidos graxos, elas tornam-se mais propensas ao ataque de radicais livres. Como consequência desse processo, pode ocorrer a diminuição da viabilidade celular. Com relação às leveduras submetidas ao T2 apresentarem menor viabilidade que as leveduras submetidas ao T3, pode estar associado ao processo adaptativo durante os 50 ciclos de aumentos gradativos de Na2SeO3 ao meio de cultivo. O que pode ter gerado o que chamamos de evolução adaptativa, justificando essa alta concentração de 400 mg/L de Na2SeO3 não causar tanto estresse ao nível celular como 200 mg/L.

Conclusões

Conclui-se que, mesmo com a evolução adaptativa, as leveduras reduzem a sua capacidade de acumular a trealose e manter a viabilidade celular.

Agradecimentos

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Referências

BRIN, M. Transketolase: Clinical aspects. In: Methods in enzymology. Academic Press, 506-514, 1966.

GENÇ, T. T. Reserve Carbohydrate Metabolism in Crabtree-Negative and–Positive Yeasts at Different Carbon Sources. Advancements in Life Sciences, v. 8, n. 1, 47-51, 2020.

KIELISZEK, M. Selenium–fascinating microelement, properties and sources in food. Molecules, v. 24, n. 7, 1298, 2019.

KIELISZEK, M.; BIERLA, K.; JIMÉNEZ-LAMANA, J.; KOT, A. M., ALCÁNTARA-DURÁN, J.; PIWOWAREK, K.; SZPUNAR, J. Metabolic response of the yeast Candida utilis during enrichment in selenium. International Journal of Molecular Sciences, v. 21, n. 15, 5287, 2020.

MOON, J. E.; HEO, W.; LEE, S. H.; LEE, S. H.; LEE, H. G.; LEE, J. H.; KIM, Y. J. Trehalose protects the probiotic yeast Saccharomyces boulardii against oxidative stress-Induced cell death. 2020.

PEDRERO, Z.; MADRID, Y. Novel approaches for selenium speciation in foodstuffs and biological specimens: a review. Analytica chimica acta, v. 634, n. 2, 135-152, 2009.

PIERCE, J. S.; ANALYSIS COMMITTEE. Institute of Brewing: Analysis committee measurement of yeast viability. Journal of the Institute of Brewing, v. 76, n. 5, 442-443, 1970.

SURAI, P. F.; KOCHISH, I. I.; FISININ, V. I.; VELICHKO, O. A.. Selenium in poultry nutrition: From sodium selenite to organic selenium sources. The journal of poultry science, v. 55, n. 2, 79-93, 2018.

TREVELYAN, W. E.; HARRISON, J. Studies on yeast metabolism. 5. The trehalose content of baker's yeast during anaerobic fermentation. Biochemical Journal, v. 62, n. 2, 177, 1956.

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