• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

EFEITO DO SOLVENTE NA RECUPERAÇÃO DOS COMPOSTOS BIOATIVOS DO RESÍDUO DE UMBU

Autores

Freitas, B.P. (INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA) ; Oliveira, A.H. (EMBRAPA AGROINDÚSTRIA DE ALIMENTOS) ; Kunigami, C.N. (INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA) ; Novo, A.A. (INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA) ; Matta, V.M. (EMBRAPA AGROINDÚSTRIA DE ALIMENTOS) ; Jung, E.P. (INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA) ; Ribeiro, L.O. (INSTITUTO NACIONAL DE TECNOLOGIA)

Resumo

Este trabalho teve como objetivo avaliar o efeito do solvente na recuperação dos compostos bioativos do resíduo do despolpamento de umbu (casca, caroço e torta do refino da polpa). Etanol e acetona em diferentes concentrações foram empregados na extração. Os resultados mostraram que o uso de acetona promoveu maior recuperação dos compostos fenólicos, resultando em extratos mais antioxidantes (p<0,05). A capacidade antioxidante dos extratos cetônicos não variou com aumento do percentual de acetona no solvente (30% - 70%) (p>0,05). A casca apresentou-se como a fração mais rica em compostos bioativos. Conclui-se que o resíduo de umbu pode ser usado como matéria-prima para obtenção de compostos de maior valor agregado, empregando acetona 30% como solvente.

Palavras chaves

Spondias tuberosa; resíduos agroindustriais; compostos bioativos

Introdução

O umbuzeiro, da família Anacardiaceae, é uma árvore frutífera nativa encontrada na região semiárida do Brasil. Segundo o IBGE, em 2020, foram produzidas cerca de 9,5 toneladas de umbu (Spondias tuberosa), principalmente, no estado da Bahia e no norte de Minas Gerais, os quais foram responsáveis por 78% da produção total no país. O umbu possui um tempo de vida útil pós-colheita curto, o que acarreta em perdas quando comercializado in natura. Entretanto, por ser uma fruta com rendimento de polpa entre 55 a 65%, o principal produto comercial da sua cadeia produtiva é a polpa congelada. (Lima et al., 2002). O processo de despolpamento é conhecido pela geração de resíduos, representados, principalmente, por cascas e sementes. A fim de reduzir o impacto do setor agroindustrial no meio ambiente, tais biomassas têm sido aproveitadas por conterem compostos bioativos que apresentam diferentes atividades biológicas, representando, desta forma, uma alternativa para agregação de valor à cadeia produtiva das frutas. De acordo com Ribeiro et al. (2019), a casca de umbu apresentou relevante teor de compostos fenólicos e carotenoides. Já os caroços, caracterizados por Dias et al. (2019), além dos compostos fenólicos, foram ricos em ácidos graxos insaturados. Os compostos bioativos presentes em matrizes vegetais, de forma geral, atuam como agentes biológicos que podem trazer benefícios à saúde, por exemplo, a redução na incidência de doenças crônicas. As propriedades funcionais desses compostos são associadas ao seu potencial antioxidante no organismo, uma vez que atuam sobre os radicais livres (Verena et al., 2012). Entretanto, esses compostos precisam ser recuperados da matriz por meio de técnicas de extração. Dentre os parâmetros de extração, o tipo de solvente exerce grande influência na eficiência do processo. Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do solvente na recuperação dos compostos bioativos presentes no resíduo do despolpamento de umbu (casca, caroço e a torta do refino da polpa).

Material e métodos

Para o desenvolvimento deste trabalho, as frutas, obtidas no comércio local da cidade do Rio de Janeiro, foram despolpadas em uma despolpadeira horizontal. O resíduo obtido, constituído por casca, caroço e torta do refino da polpa foram secos em estufa com circulação de ar forçada a 50 °C por aproximadamente 72 horas. As amostras secas (casca e torta) foram desintegradas em um processador doméstico para a obtenção de um material homogêneo. O caroço, após a secagem, foi triturado em moinho de facas. As amostras foram submetidas à extração sólido-líquido na razão 1:10 (m/v) sob agitação constante de 150 rpm a temperatura ambiente. Foram avaliados como solvente as misturas etanol:água e acetona:água nas concentrações de 30 e 70% (E30, E70, A30 e A70), a fim de determinar o melhor solvente para a extração dos compostos de interesse. Após uma hora de extração, os extratos foram filtrados em papel de filtro e armazenados sob congelamento até a realização dos ensaios de conteúdo de fenólicos totais (CFT) e capacidade antioxidante. Para a determinação de CFT (Singleton; Rossi, 1965), 250 µL do extrato filtrado e diluído foram reagidos com 1,25 mL do reagente Folin-Ciocalteu 10% e adicionados de 1,0 mL de carbonato de sódio 7,5% (m/v). As amostras foram aquecidas a 50 ºC por 15 minutos e resfriadas a temperatura ambiente. A absorbância foi medida em 760 nm. Os resultados foram expressos em mg de ácido gálico equivalente por 100 g (mg AGE/100 g). A capacidade antioxidante, mensurada a partir da reação dos extratos com o radical ABTS•+, foi realizada conforme Gião et al. (2007). 30 μL dos extratos foram reagidos com 3 mL da solução de radical ABTS•+ a temperatura ambiente por 6 minutos. Ao final, as absorbâncias foram lidas em 734 nm. Os resultados foram obtidos a partir da elaboração de uma curva padrão de Trolox, sendo expressos em μmol de Trolox/g. Os dados foram analisados estatisticamente por meio do software Statistica versão 13 (Dell Inc., Tulsa, OK, USA). Análise de variância (ANOVA) e teste de Tukey foram empregados para verificar a diferença entre os resultados (p<0,05). Os experimentos foram realizados em triplicata e os resultados apresentados como média ± desvio padrão.

Resultado e discussão

Com base na Figura 1, é possível observar que todas as amostras, independente do tipo de solvente, apresentaram potencial antioxidante, o que está relacionado com CFT extraído de cada matriz. A casca de umbu foi a amostra com maior disponibilidade de compostos bioativos, fornecendo extratos mais antioxidantes (p<0,05). Entretanto, como resíduos agroindustriais, os resultados mostram que todas as frações do despolpamento de umbu podem ser aproveitadas para obtenção de compostos bioativos, em função do seu uso como antioxidantes naturais em formulações alimentícias. A eficiência de recuperação dos compostos bioativos foi influenciada pela polaridade do solvente empregado no processo de extração, sendo destacado o uso de acetona 30%. De acordo com Oreopoulou et al. (2019), a eficiência de um solvente depende principalmente da sua capacidade de solubilizar os compostos de interesse, sendo os solventes de polaridade intermediária, como aqueles resultantes de sistemas binários (acetona+água), os mais eficientes para extração de compostos fenólicos, uma vez que eles podem influenciar a permeabilidade da célula vegetal, afetando a bicamada fosfolipídica da membrana. Embora o etanol seja o solvente tradicionalmente preferido em processos de extração, em função da sua baixa toxicidade, neste trabalho os resultados obtidos tanto a 30% quanto a 70% de etanol na solução extratora foram inferiores àqueles observados para o sistema acetona/água (p<0,05). Resumidamente, o incremento de acetona na solução extratora não favoreceu de forma significativa a recuperação dos compostos fenólicos na casca e na torta de umbu, exceto para o caroço. Além disso, o potencial antioxidante das amostras não foi influenciado pelo incremento de acetona no solvente. Assim, o uso de acetona 30% é destacado entre os solventes avaliados. Quanto aos extratos obtidos empregando acetona como solvente, os CFT a partir da casca, do caroço e da torta de umbu foram 3334; 947 e 1903 mg AGE 100/g, respectivamente. Para o potencial antioxidante, os valores foram 149; 44; 95 μmol de Trolox/g, respectivamente. Valores estes que corroboram o uso desse resíduo para obtenção de compostos de maior valor agregado.

Figura 1

Conteúdo de fenólicos totais (CFT) e capacidade antioxidante (ABTS•+) dos extratos da casca (C), caroço (CR) e torta (T) de umbu.

Conclusões

Conclui-se que a acetona 30% foi o melhor solvente para obtenção de extratos antioxidantes a partir do resíduo do despolpamento de umbu, sendo uma estratégia para agregação de valor à cadeia agroindustrial desta fruta nativa de importância socioeconômica para a Caatinga.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao CNPq, ao Instituto Nacional de Tecnologia e a Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Referências

DIAS, J.L.; MAZZUTTI, S.; DE SOUZA, J.A.L. FERREIRA, S.R.S. SOARES, L.A.L.; STRAGEVITCH, L. DANIELSKI, L. Extraction of umbu (Spondias tuberosa) seed oil using CO2, ultrasound and conventional methods: Evaluations of composition profiles and antioxidant activities. J. Supercrit. Fluids 2019, 145, 10–18.

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VERENA B. OLIVEIRA, LETÍCIA T. YAMADA, CHRISTOPHER W. FAGG, MARIA G.L. BRANDÃO. Native foods from Brazilian biodiversity as a source of bioactive compounds. Food Research International, v.48,170-179, 2012.

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