• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

RESULTADOS PRELIMINARES DO MAPEAMENTO GEOQÍMICO DE MERCÚRIO NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO TAPAJÓS NO ESTÁDO DO PARÁ, REGIÃO AMAZÔNICA

Autores

Rente, A.F.S. (UFPA) ; Marques, E.D. (SGB-CPRM) ; Moraes, D.S. (UFPA) ; Rente, A.F.S. (UFPA) ; Vigilio, E.P. (SGB-CPRM) ; Vasquez, M.L. (SGB-CPRM) ; Chaves, C.L. (SGB-CPRM) ; Kutter, V.T. (UFPA)

Resumo

Durante os anos de 2005 e 2006 foram realizadas campanhas para amostragem de sedimentos ativos de corrente na bacia hidrográfica do Rio Tapajós no estado do Pará. Nesta investigação utilizamos os dados obtidos dessas amostras para gerar um mapa geoquímico da distribuição espacial de mercúrio, por meio da técnica de interpolação IDW, onde foram identificados os hotspots desse elemento com concentrações extremamente elevadas, 4.43, 3.54 e 2.96 mg/kg, os associando com áreas de garimpo e pastagem. Ao analisar a série temporal de uso e ocupação do solo, foi possível a identificação da intensificação do desmatamento, das atividades agropecuárias e do garimpo de ouro na região, que podem influenciar nos teores de Hg em alguns pontos no decorrer do tempo.

Palavras chaves

Contaminação; Garimpo; Ouro

Introdução

Atualmente, um dos problemas ambientais mais discutidos sobre a bacia hidrográfica do rio Tapajós (BHTJ), são as elevadas concentrações de mercúrio, Hg, provenientes tanto de fontes geogênicas quanto antropogênicas. Ao se remover o solo em áreas de várzea, grandes quantidades de sedimento rico em Hg é aportado para os rios durante as operações de mineração, sendo essa a principal fonte na região (TELMER et al., 2006). A modificação do ambiente natural, causada pela rápida ocupação humana, mineração, desmatamento, práticas agrícolas e urbanização, tem aumentado a taxa de lixiviação e erosão do solo, fatores que estão associados a liberação natural do elemento nos ecossistemas aquáticos (BARBOSA et al., 2003). O Hg é altamente tóxico e tem a capacidade de se bioacumular e biomagnificar na cadeia alimentar aquática (SAMPAIO et al., 2005), seu ciclo causa grande preocupação, uma vez que a dieta de grande parte da população no Tapajós é baseada em consumo de pescado, principalmente a população ribeirinha e indígena, levando a uma exposição quase que diária ao Hg (FILLION et al., 2006), isso pode resultar em danos neurotóxicos irreversíveis. Partindo dessa problemática na região do Tapajós, esse trabalho tem como objetivo mapear a distribuição espacial do Hg na BHTJ/PA., associando ao processo de ocupação na região. A técnica do mapeamento geoquímico apresenta-se como uma ferramenta para monitoramento de elementos químicos potencialmente tóxicos no meio ambiente, além de possibilitar um avanço significativo no estudo da dispersão desse elemento na região, permitindo definir com mais clareza ações de gestão ambiental para manutenção de um ambiente mais sustentável.

Material e métodos

Os dados geoquímicos de sedimentos de corrente são oriundos do projeto de levantamento geoquímico de baixa densidade realizados pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB-CPRM). O processamento das amostras, seguiu o protocolo utilizada no levantamento geoquímico do projeto vazante Paracatu do SGB-CPRM (PINHO et al., 2017). Neste projeto foram coletadas, um total de 343 amostras de sedimentos ativos de corrente, distribuídas entre as microbacias da BHTJ, ao longo dos rios Tapajós, Jamanxim, Crepori, Rio Novo e seus afluentes, alcançando uma densidade amostral de 1 amostra/124 Km². As amostras foram coletadas no canal de drenagem ativo de 5 a 10 porções distribuídas em um raio de no máximo 50 metros, para uma melhor representatividade amostral. Após as coletas as amostras foram secas a 60° C em estufa, com posterior quarteamento e desagregação de torrões para evitar o “efeito pepita”, seguido de peneiramento (peneiras em aço inox com malha de < 80 mesh (< 0,175mm)), pulverização e homogeneização. A extração de metais foi realizada por digestão ácida em água régia (3:1 HCl/HNO3) a 95° C/1h. O extrato foi filtrado e diluído em 10 mL de água ultrapura e analisado por espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS). O sistema de informações geográficas, SIG, e o mapa geoquímico foram confeccionados nos softwares ArcGIS 10.5 e Quantum GIS, utilizando o sistema geográfico de referência SIRGAS 2000, para interpolação espacial dos dados obtidos. Foi aplicada a técnica do inverso da potência das distâncias (Inverse Distance Weighting - IDW) delimitados com base nas microbacias (LIMA et al., 2003, CHENG et al., 2014). Os dados de ocupação do solo foram obtidos através dos complementos do Qgis e Google Earth Engine (MapBiomas).

Resultado e discussão

As concentrações de Hg identificadas nas amostras apresentaram teores que variam de < 0.01 a 4.43 mg/kg, as maiores concentrações foram identificadas nos afluentes do Rio Novo, 4.43, 3.54 e 2.96 mg/kg próximas a áreas de garimpo, não estando associadas à área de conservação, figura 1. O solo amazônico é naturalmente enriquecido por Hg, no entanto as concentrações encontradas em algumas amostras de sedimentos de corrente, são extremamente elevadas comparadas a outros trabalhos no Tapajós, indicando um sinal claro de contaminação do garimpo (ROULET et al., 1999, LECHLER et al., 2000, FADINI & JARDIM 2001, TELMER et al., 2006). A região próxima a Br-163 é fortemente antropizada, desde sua construção na década de 70, intensificada por garimpos e grandes áreas de pastagem que se desenvolveram ao longo dessa rodovia e próximo a Itaituba, figura 2, com crescimento para 9542,88 Ha de 1990 até 2020, tabela 1. No seguimento da BR-230, são predominantes concentrações baixas e médias, < 0,01 - 0,26 mg/kg de Hg, figura 1, apresentando uma melhor preservação, provavelmente devido a presença de território indígena e unidades de conservações, com pontuais anomalias de elevadas concentrações. O garimpo na BHTJ passou de 67,06 para 515,13 Ha de 1990 a 2020, indicando que pode haver um aumento na quantidade de Hg incorporada à cadeia trófica. Elevadas concentrações de Hg são atribuídas a distúrbios antrópicos, como queimadas, agricultura, pecuária e ao garimpo (Veiga et al. 1994; ROULET et al., 1999; TELMER et al., 2006), associados a erosão e lixiviação do solo. Essa correlação está em razão do latossolo ser substancialmente capaz de acumular Hg associado a oxi-hidróxidos de ferro, a deterioração desse solo, favorecendo a contaminação dos ecossistemas amazônicos (ROULET & LUCOTTE, 1995).

figura 1

Distribuição espacial do mercúrio na bacia hidrográfica do Tapajós

figura 2

Série temporal de uso e ocupação do solo. Dados cartográficos MapBiomas e SGB-CPRM.

tabela 1

Expansão da mineração e pastagem (Ha). Fonte: Google Engine MapBiomas

Conclusões

As elevadas concentrações encontradas podem refletir a lixiviação de material sedimentar proveniente de garimpos e do desmatamento em áreas de pastagem, evidenciando a degradação do solo, porém é provável que a maior contribuição de Hg nessa região seja proveniente do garimpo. No entanto é necessário um estudo geológico associando esses dados, pois a geologia é de fundamental importância para se entender por completo a distribuição geoquímica dos elementos, assim como uma nuvem amostral maior e mais atual para cobrir toda a BHTJ e ter uma visão mais atualizada da distribuição desse elemento.

Agradecimentos

Agradeço ao CNPQ, ao Programa de pós graduação em geologia e geoquímica da UFPA e ao Serviço Geológico Brasileiro por colaborarem com a pesquisa.

Referências

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