• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

REFLEXÕES SOBRE O CURRÍCULO ESCOLAR E O ENSINO DE QUÍMICA: COM A PALAVRA OS PROFESSORES DE QUÍMICA DE UMA CIDADE MATO-GROSSENSE

Autores

Silva, S. (IFMT - CAMPUS CONFRESA) ; Caetano, V. (IFMT - CAMPUS CONFRESA) ; Fernandes, G. (IFMT - CAMPUS CONFRESA) ; Leão, M. (IFMT - CAMPUS CONFRESA)

Resumo

O currículo escolar compreende tudo o que acontece no processo educativo. Devido a sua importância, o presente estudo teve como objetivo analisar como os professores de Química de uma cidade mato-grossense compreende a relação entre o ensino de Química e o currículo escolar. Trata-se de uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa, realizada em 2020, que envolveu 7 professores de Química, que atuam no Ensino Médio de uma cidade mato-grossense. Para coletar dados, foram realizadas entrevistas online, cujo roteiro continha 10 questões abertas. Além da compreensão de currículo, os professores informaram quais documentos se baseiam para planejar suas aulas. Logo, compreender que o currículo é amplo e requer planejamento estratégico é fundamental para os professores de Química.

Palavras chaves

Currículo escolar; Ensino de Química; Percepção dos professores

Introdução

Compreende-se por currículo escolar, um documento norteador em conceitos e práticas propostas para serem desenvolvidas em cada nível de ensino. Para Lopes (2016), o currículo escolar representa uma ligação entre matérias, disciplinas com estrutura familiar que projetam uma sequência lógica, com o respectivo tempo de cada matriz e grade curricular. Atualmente, o currículo escolar é um tema de grande importância para os gestores escolares, professores, estudantes e até mesmo para os pais. Os esforços para o preparo de propostas curriculares, que favoreçam a construção de um ambiente escolar de qualidade é um desafio da atualidade que vem apresentando resultados positivos, proporcionando aos estudantes sucesso em sua trajetória escolar, cumprindo o seu objetivo de contribuir para a construção e consolidação de uma educação de qualidade. No entanto, para entender como é o currículo escolar na área das ciências da atualidade, precisa-se conhecer o processo histórico. De acordo com a Orientações Curriculares do Estado Mato Grosso 2010 (ORIENTAÇÕES, 2010), até o início do século XX, houve um precário desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil, o que, possivelmente, foi influenciado pelo não desenvolvimento do ensino de Ciências. Com as dificuldades da época e o ensino voltado para a Elite, que priorizava o ensino superior somente para ocupação dos cargos de responsabilidades, outro aspecto a ser observado é que o desprestígio da disciplina Química no currículo também pode ser identificado pela quantidade de aulas, relacionado ao fato de historicamente, as Ciências estarem associadas ao fazer e não ao pensar. Desse modo, seguindo as Orientações Curriculares do Estado Mato Grosso 2010 (ORIENTAÇÕES, 2010), esse dilema entre o científico e o cotidiano foi se desfazendo no contexto da legislação, na década de 1970, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (5.692/71) e com a criação do ensino profissionalizante em nível de 2º grau, que conferiu ao ensino de Química um caráter acentuadamente técnico-científico. De acordo com Scheffer (1997), com a redemocratização do Brasil, em 1945, reavivam- se os anseios para uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que é consolidada em 1961, com uma liberdade na elaboração curricular, que permitiu o surgimento de projetos diferenciados no ensino de Ciências. Atualmente, o Ministério da Educação, que no século passado, através de publicações documentais propondo os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, a Química começa a ocupar um papel importante. De acordo, com Brasil (1999), ela está presente e deve ser reconhecida nos alimentos e medicamentos, nas fibras têxteis e nos corantes, nos materiais de construção e nos papéis, nos combustíveis e nos lubrificantes, nas embalagens e nos recipientes. Por isso, o currículo escolar de química é tão importante. Portanto, todo o caminho percorrido pelo estudante durante sua vida escolar é todo ordenado pelo currículo escolar, onde são estruturados todos os conteúdos que o estudante deve aprender em que cada ano letivo. Atualmente, este currículo passou a ser norteado pela BNCC, com o objetivo de promover equidade na educação, sejam em escolas privadas ou públicas. Diante do exposto, este estudo tem por objetivo analisar como os professores de Química de uma cidade mato-grossense compreende a relação entre o ensino de Química e o currículo escolar.

Material e métodos

Durante as aulas de Metodologia do Ensino de Química, do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza com habilitação em Química, do Instituto Federal de Educação Ciências e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT) Campus Confresa, foi proposta a realização de uma pesquisa com professores de Química da região, com o intuito de posterior ao questionário fazer uma análise da entrevista para compreender a relação entre o ensino de Química e o currículo escolar. É importante ressaltar que o professor disponibilizou um roteiro (questionário) para a entrevista, dessa forma a entrevista seria padronizada. A atividade foi desenvolvida no ano de 2020, levando em consideração o fato de estarmos passando pelo primeiro ano da pandemia da Covid – 19, a pesquisa foi realizada por meio de entrevistas semi-estruturadas por meio de recursos tecnológicos de comunicação, geralmente via Google Meet. Ao todo, sete professores participaram da pesquisa e responderam aos seguintes questionamentos: 1) Há quanto tempo já atua ministrando aulas de química? 2) Já ministrou aulas de outras disciplinas? 3) O que você compreende por currículo escolas? 4) Existe um currículo norteador para o ensino de química em sua escola? Em caso afirmativo, esse currículo está de acordo com a BNCC e as Orientações Curriculares de Mato Grosso? 5) Como você seleciona os conteúdos a serem abordados em aula e escolhe as estratégias que utilizara para ensinar? 6) Em que você se apoia para planejar suas atividades docente? 7) Em suas aulas já ocorreu de ser necessário mudar as atividades planejadas? Relate o motivo. 8) Existem conceitos químicos que você considera mais importante de ser ensinados? 9) Qual a importância de ensinar química aos estudantes? 10) Considerando suas experiencia em anos anteriores, conseguiu desenvolver o currículo previsto para cada etapa escolar? No intuito de garantir o anonimato dos sujeitos dessa investigação, os nomes foram substituídos por algarismos alfanuméricos da seguinte forma: P1 (Professor 1), P2 (Professor 2), P3 (Professor 3) e assim sucessivamente.

Resultado e discussão

Como já mencionado, a entrevista foi realizada com sete professores de química de uma cidade mato-grossense. Os dados coletados permitiram observar que os professores envolvidos possuem entre dois meses e vinte e um anos atuando em aulas de química. Quando questionados se já ministraram aulas de outras disciplinas, quatro responderam que não, enquanto outros três responderam que sim, o P1 ministrou aulas de física e matemática, o P2 de ciências e o P3 de matemática. Em relação ao entendimento dos professores por currículo escolar, todos relataram a mesma linha de pensamento, que se trata de um meio norteador com apanho de conceitos e práticas que devem ser trabalhados em cada nível de ensino, ou seja, todos compreendem como um caminho que direciona o processo educacional. O P1 ainda complementa este questionamento afirmando que “o currículo é flexível, deve ser sempre discutido e o professor deve sempre selecionar conteúdos que serão importantes na formação do estudante, além disso cada escola deve pensar o seu currículo de acordo com o contexto que está localizada”. Referente ao questionamento sobre a existência do currículo escolar para o ensino de química na escola onde os entrevistados ministram aula, todos informaram que existe, o P1, P2, P3, P4, P5 e P6 mencionaram o Projeto Político Pedagógico do Curso (PPC), enquanto o P7 mencionou apenas o livro didático. Quando indagados sobre como realizam a seleção de conteúdos a serem abordados em aula e como escolhem as estratégias para ensinar, o P1 respondeu “A seleção dos conteúdos é de acordo com a ementa prevista no curso. O conteúdo está previsto, o que faço é selecionar a forma de abordar cada um deles, e o nível de aprofundamento de acordo com a turma. As estratégias dependem do conteúdo e do número de estudantes. Como sempre fico com muitas disciplinas que envolvem cálculos, tenho o cuidado de não fazer atividades que demorem muito e atrapalhe o rendimento da turma. Geralmente as aulas com experimentos podem ajudar a compreender os conceitos, que é muito importante para entender como fazer os cálculos.” O professor P2 respondeu que seleciona “de acordo com as competências que devem ser trabalhadas em cada ano, em consonância com a BNCC e o currículo da escola.” Os professores P3, P4, P5 e P6 mencionaram o tradicional e a atualidade, onde tentam unir desde os livros aos meios digitais. Enquanto o P7 relatou que “sempre que possível tento relacionar a teoria com a prática, para complementar o que foi estudado em sala realizo a demonstração de algumas experiências”. E relação aos meios que se apoiam para planejar as atividades docentes, o P1, P3, P4, P5 e P6 frisaram que se apoiam no currículo descrito no PPC e em livros, artigos e textos cientificados publicados. O P2 mencionou a BNCC, internet e livros didáticos. Já o professor P7 mencionou o livro didático, sites da internet e vídeos aulas. Referente ao questionamento sobre se já ocorreu de ser necessário mudar as atividades planejadas, todos mencionaram que sim, até mesmo o professor P7 que possui apenas dois meses de atuação. O motivo relatado pelos P1 e P7 se relacionam a quantidade de alunos insuficientes para determinada atividade. O P2 relatou que “diversas situações levam a mudança no planejamento, desde a dificuldade demostrada pelos estudantes até mesmo a chegada de novos estudantes. Rever o planejamento tem que ser uma postura adotado por todos docentes quando perceber que os objetivos não foram alcançados. Sem mencionar os imprevistos que acabam ocorrendo nas escolas, como falta de água e outros similares.” Os P3, P4, P5 e P6 mencionaram que muitas vezes as atividades práticas planejadas não podem ser realizadas por falta de equipamentos, reagentes ou vidrarias. Quando indagados se consideram conceitos químicos mais importantes de ser ensinados, todos os professores com exceção do P2 responderam que sim, justificando que há conceitos mais importantes por se relacionarem com o cotidiano dos estudantes. O P2 justificou que concorda “com a sequência didática e neste contexto partimos de conceitos mais simples e vai evoluindo para conceitos mais complexos. Na química e ciências os conceitos são uma sequência. Nesta linha não existe algo mais ou menos importante, o estudante precisa pensar criticamente sobre todo o assunto abordado para auxiliar no processo de tomada de decisão e construção do conhecimento científico. Sem deixar de mencionar que as realidades dos estudantes devem ser inseridas no contexto estudado, e o assunto que cada professor considera mais importante pode não ter impacto direto na vida do estudante. Agora as pautas ambientais devem ter destaques em todo os conceitos trabalhados, mas de forma interdisciplinar por todos os demais professores.” Em relação ao questionamento sobre a importância de ensinar química aos estudantes, todos os professores argumentaram o fato desta disciplina estar presente diversas atividades e produtos utilizados cotidianamente. Relativo a última pergunta da entrevista, que questionava se os professores conseguiam desenvolver o currículo previsto em cada etapa de escolarização. Todos com exceção do P7 que tem pouco tempo de atuação, responderam que algumas vezes sim, outras não. Dado que existem muitas interferências que podem prejudicar o andamento e o planejamento do currículo, como o desenvolvimento da turma e a bagagem de conhecimento de anos anteriores.

Conclusões

Com a realização deste estudo, tornou-se visível a importância do currículo no contexto escolar e, por isso, mostrou-se uma ferramenta indispensável no processo educacional. Por meio do currículo escolar, a escola se torna uma instituição capaz de contribuir para que a realidade social da escola seja refletida e conscientizada pelos estudantes. Também permitiu entender o funcionamento do currículo escolar de química de acordo com os professores deste componente curricular, muitos com mais de dez anos de atuação na educação. Com a entrevista, percebe-se que o currículo escolar é de suma importância, no entanto, o mesmo deve ser flexível e levar em consideração as necessidades de cada instituição de ensino, em razão de que nem todas possuem a mesma realidade. Como mencionado pelos professores, muitas vezes o currículo proposto não pode ser desenvolvido, por isso essa flexibilidade é importante.

Agradecimentos



Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais Ensino Médio. Brasília, DF: Ministério de Educação, 1999.
LOPES, G. K. F. Currículos e programas. 1 ed. Sobral: Inta, 2016.
ORIENTAÇÕES Curriculares: Área de Ciências da Natureza e Matemática: Educação Básica. / Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso. Cuiabá: SEDUC-MT, p. 83-102, 2010.
SCHEFFER, E. W. O. Química: ciência curricular, uma abordagem histórica. Dissertação de mestrado do curso de Pós-graduação em educação da Universidade Federal do Paraná. Curitiba – PR, 1997.

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