• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

Um panorama da verticalização do ensino na área de Química nos Institutos Federais do Estado de Goiás: a oferta de cursos e a trajetória formativa dos professores

Autores

Nobre-da-silva, N.A. (IF GOIANO CAMPUS IPORÁ) ; Silva, R.R. (UNB)

Resumo

Este trabalho tem como objetivo traçar um panorama da oferta dos cursos de Química pelos Institutos Federais do Estado de Goiás, bem como da trajetória formativa dos docentes de Química que atuam frente a verticalização do ensino nos referidos cursos. Para tanto, utilizamos uma abordagem qualitativa e descritiva englobando pesquisa documental cujos dados foram extraídos da Plataforma Nilo Peçanha, e- MEC, currículo Lattes e, entrevista semiestruturada com 14 docentes vinculados ao IFs do Estado de Goiás. Os resultados foram organizados em três categorias: a) Os Institutos Federais do Estado de Goiás e a verticalização na área de Química; b) A trajetória dos docentes; c) Estratégias dos IFs para se tornarem centro de excelência em ensino de ciências.

Palavras chaves

Institutos Federais; Química; Verticalização do ensino

Introdução

Os Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia (IFs) surgiram a partir da promulgação da Lei 11.892/2008, em que os Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET), Escolas Agrotécnicas Federais (EAF) e as Escolas Técnicas vinculadas às Universidades Federais (ETF), a Universidade Tecnológica Federal do Paraná e o Colégio Pedro II foram integrados para compor a Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica (RFEPCT). A partir da Lei de criação, é endossada aos Institutos Federais, formados por antigas e novas unidades, a necessidade de reconstruir sua identidade, visto a nova organização. Embora haja semelhanças com os CEFET no sentido de oferta de ensino técnico de nível médio, tecnólogo e licenciaturas, a nova redação define os Institutos Federais como instituições de nível superior, só que agora, com uma estrutura pluricurricular e multicampi. Ademais, as licenciaturas, que logravam segundo plano no quadro de cursos oferecidos pelos CEFET, são agora garantidas, pois a Lei 11.892/2008, em seu artigo 7º, determina o mínimo de 20% das vagas a tais cursos, bem como programas de formação pedagógica. Em continuidade, dois princípios balizam e fortalecem o projeto de criação dos institutos: a interiorização e a verticalização do ensino. Compreendemos esta última como uma proposta pedagógica de compartilhamento de conhecimentos entre os atores envolvidos, nos processos educativos das mais diferentes modalidades e níveis de ensino. Em decorrência, se concretiza também, na oferta de cursos em diferentes modalidades e níveis, como: ensino técnico - médio integrado, concomitante ou subsequente; educação de jovens e adultos; curso superior - licenciaturas, tecnólogos, bacharelados, engenharias; cursos de formação inicial e continuada; especializações lato e stricto sensu. Uma preocupação quanto à proposta é que o professor, em grande parte, atua na Educação Profissional de Nível Médio, nos cursos superiores, e ainda, nas pós-graduações. No entanto, desconsidera-se que ele não passou por um processo formativo que contemple tanta diversidade. Ele é formado em seu exercício. São os saberes, em sua maioria, provenientes da prática, que orientam suas ações e fatores como este têm nos provocado inquietações. Dado que os docentes da Rede Federal atuam em diferentes níveis e modalidade de ensino, eles são enquadrados na carreira de magistério do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT). É também preciso ressaltar que a Lei 11.892/2008 estabelece como princípios e finalidades dos IF “constituir-se como um centro de excelência na oferta de ensino de ciências” (BRASIL, 2008). Diante disso, surgem questionamentos: A verticalização de ensino na área da Química tem ocorrido nos Institutos Federais do Estado de Goiás? Qual a trajetória formativa dos docentes que atuam nos cursos de Química de nível médio e superior no Estado de Goiás? Qual o suporte à formação docente em Química tem sido ofertado pelos IF a fim de se consolidar enquanto centro de excelência na oferta de ensino de ciências? Assim, este trabalho é um recorte de uma pesquisa de doutorado e tem como objetivo traçar um panorama da oferta dos cursos de Química pelos Institutos Federais do Estado de Goiás, bem como da trajetória formativa dos docentes de Química que atuam frente a verticalização do ensino nos referidos cursos.

Material e métodos

Situamos esta investigação no contexto das pesquisas qualitativas, e um estudo do tipo descritivo. A pesquisa qualitativa é reconhecida por sua característica descritiva, que não é acrítica, mas coerente, lógica e consistente, guiada pelos pressupostos teóricos do pesquisador. A preocupação é centralizada no processo e não no resultado, uma vez que o significado que os sujeitos atribuem às coisas, sua trajetória, a relação sujeito-objeto são elementos importantes (LUDKE; ANDRÉ, 1986). O recorte da pesquisa aqui apresentado compreende três etapas: 1) estudo documental – nessa etapa foi realizado o levantamento de cursos de Química ofertados pelos Institutos Federais do Estado de Goiás (Instituto Federal de Goiás - IFG e, Instituto Federal Goiano – IF Goiano), a fim de identificar quais as regiões ofertavam cursos na área e quais os níveis de ensino ofertados. Para coleta de dados utilizamos as informações da Plataforma Nilo Peçanha e do sistema e-MEC. Após identificados os cursos, utilizamos como critério investigar apenas os campi que atendiam o princípio de verticalização do ensino na área de Química. 2) identificação dos professores: prosseguimos com estudo documental, analisando as informações disponibilizadas pelos sites oficiais do IFG e IF Goiano para mapear os docentes da área de Química. Feito isso, entramos em contato com 31 docentes convidando para participar do estudo. Destes, 14 deram retorno positivo. Assim, recorremos ao currículo Lattes e à uma entrevista semiestruturada cujo objetivo foi obter dados de sua trajetória formativa antes e após o ingresso na carreira EBTT. 3) Prosseguimos no estudo documental coletando as notas do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) dos cursos de Química ofertados pelos IFs, como um indicativo da consolidação dos IFs como centro de excelência no ensino de ciências. Em prosseguimento, os dados foram analisados de forma descritivo-interpretativa, tendo como fundamentação a literatura acerca da formação de professores e formação de professores para a Educação Profissional e Tecnológica. Os resultados foram organizados em três categorias: a) Os Institutos Federais do Estado de Goiás e a verticalização na área de Química; b) A trajetória dos docentes; c) Estratégias dos IFs para se tornarem centro de excelência em ensino de ciências.

Resultado e discussão

a) A partir da Lei 11.892/2008, foram implementados, no estado de Goiás, dois Institutos Federais: Instituto Federal de Goiás e Instituto Federal Goiano. O IFG segue uma linha histórica, cujo marco inicial foi a criação da Escola de Aprendizes e Artífices, em 1909, na então capital do estado, a cidade de Goiás (antiga Vila Boa). Já o IF Goiano tem como precedente as escolas agrotécnicas/ginásios agrícolas de Rio Verde, Ceres e de Urutaí e sua unidade descentralizada de Morrinhos. Atualmente, o IFG conta com 14 unidades e o IF Goiano com 12 unidades e um polo de inovação. Nosso levantamento indicou a oferta de cursos de Química em diferentes unidades, conforme indica o Quadro 1. A partir do Quadro 1 é possível observar que o IFG oferta um maior quantitativo de cursos de Química em nível médio técnico, isso pode estar relacionado com as características econômicas e produtivas das regiões em que estão instalados. Por exemplo, Aparecida de Goiânia e Anápolis possuem um número expressivo de empresas que empregam técnicos em química. Além disso, no que tange a oferta de cursos como meio de concretizar a verticalização do ensino, percebemos que o IFG se destaca. Isto porque no IF Goiano apenas o campus Iporá permite que o discente formado no curso técnico em química possa permanecer na mesma instituição e continue na mesma área. Já no IFG isso ocorre em cinco campi: Anápolis, Inhumas, Itumbiara, Luziânia e Uruaçu. No que tange a atingir o ideal de centro de excelência no ensino de ciências, ambos os IFs têm investido na estrutura física, em projetos de pesquisa, Laboratório Maker, na capacitação docente. Contudo, considerando o ENADE como um dos indicadores da qualidade do ensino superior, os resultados de 2021 indicam fragilidade nos cursos de Licenciatura em Química. Dentre os campi do IF Goiano que ofertam o curso supracitado, apenas Rio Verde e Morrinhos tiveram nota 3, os demais obtiveram nota 2. Já do IFG, apenas Anápolis teve nota 3, os demais também obtiveram nota 2. Cabe destacar que as notas vão de 1 a 5. b) No que tange à formação inicial, nossos participantes se dividem entre a Licenciatura em Química (2), Bacharelado em Química (5), Licenciatura e Bacharelado em Química (5), Química Industrial (2), aparecendo ainda graduação em Farmácia e Bioquímica, e Tecnologia em Química Agro-industrial. No tocante à pós-graduação, temos 5 doutoras e 2 doutores (Química, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde e Ensino de Ciências e Matemática), e 5 mestres e 2 mestras (Ciências de Materiais, Química, Química ênfase em ensino). Dentre os/as mestres/as, 3 estão em processo de doutoramento, 1 em Química e 2 em Ensino de Ciências. A especialização em Formação Pedagógica para a Educação Profissional e Tecnológica aparece no currículo de 3 professoras que não cursaram a modalidade licenciatura, indicando uma preocupação delas com os aspectos didático-pedagógicos. É possível observar que a formação se dá, preponderantemente, nos cursos voltados para o setor produtivo e a carreira científica como Química Industrial e o Bacharelado. Não por acaso, esses cursos são reconhecidos pelo foco na formação científica e o desenvolvimento de atividades experimentais voltadas para as habilidades procedimentais e atitudinais. Ademais, “a literatura sobre a formação de bacharéis ressalta a forte presença da educação bancária a que estes são submetidos” (SOUZA; NASCIMENTO, 2013, p. 422). Cinco docentes cursaram tanto o bacharelado, quanto a licenciatura. No entanto, a maioria a fez em caráter de complementação, para “ter o currículo completinho”. Uma das entrevistadas relata que inicialmente trabalhou em uma indústria de folheação de joias e após decidir pela docência, por afinidade com o exercício da profissão, a formação apenas no bacharelado limitava suas possibilidades de concorrer às vagas ofertadas pelos concursos. Como aponta Kuenzer (2011), a licenciatura é vista como chance de alargar as possibilidades de trabalho, em situações que o bacharelado não o faz. c) Os trabalhos de Lima (2012, 2016), Lima e Silva (2014) e Silva (2017) denunciam uma proposta tecnicista, pragmática e mercadológica como base do projeto de oferta das licenciaturas nos IFs. No sentido de superar essa marca e ir ao encontro da formação de professores crítico-reflexiva, o IF Goiano tem apostado na oferta de cursos de complementação pedagógica para os docentes não- licenciados, o que posteriormente, refletirá na qualidade da formação dos futuros professores. Além disso, seguindo a legislação pertinente, IFG e IF Goiano utilizam editais para liberação de servidor para capacitação. O IF Goiano possui parceria com o programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal de Goiás, com reserva de vagas para seus servidores.




Conclusões

Uma das características dos Institutos Federais é a verticalização do ensino que deve ser tomada como um princípio pedagógico e administrativo e se materializa, também, na oferta de cursos de diferentes níveis de ensino. Nesse ínterim, este trabalho buscou traçar um panorama da oferta dos cursos de Química pelos Institutos Federais do Estado de Goiás, bem como da trajetória formativa dos docentes de Química que atuam nesses cursos. O mapeamento indicou a oferta dos cursos de Química por diferentes microrregiões do Estado, sendo que o IFG atua em seis municípios: Anápolis, Aparecida de Goiânia, Inhumas, Itumbiara, Luziânia e Uruaçu, e o IF Goiano em cinco: Ceres, Iporá, Morrinhos, Rio Verde e Urutaí. Contudo, em termos de contemplar a verticalização na área, o IFG se destaca com a oferta de curso Técnico Integrado em Química e Licenciatura em Química em 5 campi. Por outro lado, isso só ocorre em um campus do IF Goiano. No tocante à formação dos docentes que atuam frente à verticalização do ensino na área de Química, dos 14 entrevistados, 7 possuem Licenciatura porém, 5 desses a fizeram em caráter de complementação ou dupla formação. Um aspecto positivo é o número de docentes com mestrado e/ou doutorado. No total, 7 doutores sendo uma em Ensino de Ciências e Matemática e, 3 em processo de doutoramento, dos quais 2 em Ensino de Ciências. Dentre as estratégias adotadas pelas instituições para fortalecer a formação de seus servidores estão a oferta de cursos de complementação pedagógica, editais de afastamento para capacitação e parcerias com programas de pós-graduação com reserva de vagas.

Agradecimentos

Ao Instituto Federal Goiano pelo apoio financeiro.

Referências

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