• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

A DIMENSÃO EPISTÊMICA DA RELAÇÃO COM O SABER EM CÁLCULOS DE CONVERSÃO DE MEDIDAS DE ALUNOS DE ENFERMAGEM NA EJA-EPT

Autores

Vilela, G. (CENTRO DE ENSINO EM PERÍODO INTEGRAL LUÍS PERILLO) ; Bento, B. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS) ; Ribeiro Jr, R.M. (INSTITUTO FEDERAL DE GOIÁS) ; Echeverria, A.R. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS)

Resumo

O presente trabalho apresenta resultados parciais de uma investigação maior sobre a relação com o saber de estudantes de uma turma do curso técnico em enfermagem integrado ao ensino médio na modalidade EJA do IFG – Campus Goiânia Oeste. Os dados da investigação foram obtidos através de duas entrevistas: uma focada no sentido e a outra na eficácia da atividade de estudo. A análise das entrevistas foi realizada por meio de leituras ressonantes do grupo de pesquisa. Na dimensão epistêmica concluímos que a principal dificuldade que os estudantes possuem quando enfrentam problemas de regra de três está em estabelecer e relacionar as medidas enunciadas e solicitadas nos problemas.

Palavras chaves

Relação com o saber; EJA-EPT (PROEJA); Regra de três

Introdução

A classe trabalhadora luta contra uma estrutura histórica da educação brasileira marcada por aspectos elitistas e de exclusão social, tendo como uma conquista a modalidade EJA integrada à formação profissional. Conquista essa que não deixa de ser atacada por políticas neoliberais impostas pela burguesia no país. Esse cenário escolar demanda uma reestruturação da escola e é um potente espaço para uma sociedade mais justa e igualitária. Qual é o papel da escola? O que significa estudar, aprender e, no caso do docente, ensinar? Essas perguntas permeiam obras de autores como Patto (2015), Marchesi et al (2004), Faria (2008). Encontramos reflexões em torno dessa problemática na obra de Bernard Charlot. A Teoria da Relação com o Saber é uma teoria do aprender em sua forma mais geral. Pensando com e contra a Sociologia da Reprodução de Bourdieu e Passeron, Charlot traz à tona a atividade escolar e a postura dos alunos diante dela como objeto de investigação (CHARLOT, 2013). A aprendizagem só é possível quando o sujeito entra em atividade e desenvolve suas ações em acordo com as regras internas que regem a atividade e sem as quais a realização da atividade não é possível. A aprendizagem é entendida como uma relação do sujeito com o mundo, com o outro, consigo e com o saber (CHARLOT, 2000). Analisar a atividade do aluno requer, portanto, prestar atenção a duas dimensões dialeticamente entrelaçadas: a identitária e a epistêmica. Este trabalho apresenta um recorte das discussões e conclusões que elaboramos ao investigar a atividade de estudantes do curso técnico em enfermagem integrado ao ensino médio EJA, no IF–Goiânia Oeste. Os resultados são dedicados as interações discursivas em torno de um problema de dosagem de medicamentos proposto para os estudantes.

Material e métodos

Os dados e as análises resultantes desta pesquisa foram obtidos em três momentos: (I) entrevista com foco no sentido, (II) entrevista com foco na eficácia da aprendizagem e, posteriormente, (III) análise coletiva no grupo de pesquisa. A primeira entrevista, com foco na dimensão identitária, se tratava de uma narrativa de vida temática Bertaux (2010), em que elementos identitários da relação com o saber surgissem quando o estudante era estimulado a narrar sua trajetória escolar. Na segunda entrevista, tendo como foco a eficácia (dimensão epistêmica), foi proposto ao estudante um sistema de problemas, organizados em núcleos conceituais (NC’s), para serem solucionados em colaboração com o PP. Após transcritas, a análise das entrevistas se deu por “leituras ressonantes” (figura 1), termo de Marie-Pascale Léger para se referir as análises em que o grupo de pesquisa estuda em conjunto as transcrições, guardando-as a memória das leituras anteriores, para que seja possível identificar, explicar e contextualizar a história singular do entrevistado (CHARLOT, 2009).

Resultado e discussão

Nossa investigação chegou a mapear discussões que se faziam no início da alfabetização matemática. Para esse trabalho, restringimo-nos em apresentar as investigações a respeito do problema 12 do núcleo conceitual 2 (NC2). O NC2 tem como eixo temático problemas de conversão de medidas. Essas conversões podem ser dentro da mesma grandeza ou de grandezas distintas. As duas situações são presentes no problema 12, o que o torna o exercício de maior complexidade do NC2. Através das leituras ressonantes foi possível enumerar o passo-a-passo adotado pelos estudantes na resolução do problema (figuras 2A, 2B, 2C e 2D) para mapear nos turnos de fala o momento da solução do problema. Nos exemplos por nós analisados pudemos notar dificuldades dos estudantes em i) ter uma visão panorâmica do problema; ii) correlacionar dados adquiridos ao longo do problema com as demais informações e iii) compreender o significado físico das medidas do problema. A R3 exige do aluno uma abstração da realidade para adequar uma situação para um modelo matemático (SILVA, 2011). As dificuldades que identificamos residem na conversão da representação matemática do problema (modelagem) e não nas operações algébricas (tratamento) das contas. Esse ganho da pesquisa faz necessária uma mudança da prática pedagógica no sentido de dedicar mais tempo ao processo de identificar, estabelecer e escrever relações através de diferentes registros. A identificação das dificuldades presentes na entrevista dos estudantes corrobora a hipótese inicial que nos guiou na formulação da pesquisa: o domínio dos conceitos de grandeza, medida, unidade de medida e relação deve ser uma potente ferramenta para os estudantes recorrerem ao enfrentar problemas de conversão de medidas.

Figura 1: Esquema da produção de dados pelas leituras ressonantes

O estudo das entrevistas pelo grupo de estudo produz dialeticamente o mapeamento dos processos que produzem a singularidade do entrevistado.

Figura 2: Passos de resolução do problema 12 pelos estudantes E01 (A),



Conclusões

Os resultados discutidos concordam com Silva (2011) e Mochón Cohen (2012) que a R3 utilizada de forma ritualística produz ideias mal-entendidas de proporcionalidade e sua utilização acaba por ser feita apenas em situações envolvendo problemas típicos de R3 Defendemos o aprofundamento das discussões sobre relações e proporcionalidade como alternativa de expansão do repertório didático do professor. Isso já tem sido feito nos espaços ocupados por nosso grupo de pesquisa, com resultados promissores e melhora do desempenho do estudante, não deixando de ser acompanhada por novas reflexões.

Agradecimentos

Ao Grupo de Estudos e Pesquisas da Teoria Histórico-cultural Papagaios Vermelhos pelos importantes debates realizados.

Referências

BERTAUX, D. Narrativas de vida: a pesquisa e seus métodos. Natal: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2010.
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.
_____. B. Da relação com o saber às práticas educativas. São Paulo: Cortez, 2013.
_____. A relação com o saber nos meios populares: uma investigação nos liceus profissionais de subúrbio. Porto: Livpsic, 2009..
FARIA, G. G. Os ciclos do fracasso escolar: concepções e proposições. Doutorado (tese) – Programa de Educação, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2008.
MARCHESI, A. et al. Fracasso escolar: uma perspectiva multicultural. Porto Alegre: Artmed, 2004.
MOCHÓN COHEN, Simón. Enseñanza del razonamiento proporcional y alternativas para el manejo de la regla de tres. Educación matemática, v. 24, n. 1, p. 133-157, 2012.
PATTO, M. H. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. 4ª Ed. São Paulo: Intermeios, 2015.
SILVA, Denivaldo Pantoja da et al. Regra de três: prática escolar de modelagem matemática. 2011.

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