• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

QUEM DISPAROU A ARMA DE FOGO? – UMA PROPOSTA DIDÁTICA PARA O ENSINO DE QUÍMICA DE COORDENAÇÃO

Autores

Carvalho, J.L. (IFF) ; Nunes, R.C. (IFF)

Resumo

Com o intuito de desenvolver mudanças nas práticas didáticas atuais, estratégias metodológicas vêm sendo colocadas em prática. As metodologias ativas surgem como uma dessas estratégias inovadoras. O presente trabalho apresenta a ciência forense vinculada à uma metodologia ativa como tema transversal para o ensino de química de coordenação. Partindo das metodologias que envolvem a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) e uma técnica comumente utilizada nas Ciências Forenses, desenvolveu-se uma proposta didática envolvendo o chumbo proveniente do disparo de arma de fogo. A metodologia utilizada admite a elaboração de um produto educacional baseando-se nos procedimentos de pesquisa-ação, pressupondo ações que tragam elementos da pesquisa científica.

Palavras chaves

Compostos de coordenação; Metodologias Ativas; Química Forense

Introdução

Um dos desafios de ensinar Ciências está na construção de princípios que possibilitem a interação dos alunos, que torne a aprendizagem mais ampla e que proporcione a tomada de decisões fundamentadas e críticas. Para que as necessidades possam ser supridas o ensino e na educação científica, surgem as Metodologias Ativas de Aprendizagem (NASCIMENTO e COUTINHO, 2016). De acordo com Berbel (2011), as metodologias ativas são formas de desenvolver o processo de ensino e aprendizagem utilizando de experiências reais ou simuladas. Neste caso, visam-se as condições de resolução de problemas de modo satisfatório, onde os desafios propostos são oriundos das atividades essenciais da prática social em diferentes contextos. No ensino de química fala-se muito a respeito da contextualização como estratégia de ensino para aumentar o interesse dos alunos pelos conteúdos ensinados (NUNES; ADORNI, 2010). Quando as metodologias ativas são associadas a recursos e temáticas que são atraentes para os estudantes, elas revelam-se ainda mais significativas no processo de ensino-aprendizagem, neste sentido, alguns autores revelam possibilidades de promoção do ensino de ciências utilizando a química forense por meio de metodologias e estratégias de ensino (VENTURA; MARTINS JUNIOR, 2021). Martins et al. (2016) apontam a química forense como ferramenta de contextualização do conhecimento de disciplinas, utilizando do aprendizado para resolução de problemas aplicados à sociedade de modo geral, visto que, nos últimos anos o interesse pela ciência forense tem crescido devido às séries televisivas que retratam a rotina de profissionais forenses. Esse tipo de programa televisivo auxilia na construção de situações que possibilitam o desenvolvimento da cognição, além de despertar o interesse do aluno (SOUZA; LEITE, 2018) Especificamente, quando falamos no ensino de química inorgânica destinado à educação superior, poucos são os trabalhos encontrados na literatura que utilizam de metodologias distintas para o ensino deste componente curricular, logo, os alunos que cursam essa disciplina tendem a apresentar certa dificuldade na aprendizagem e na assimilação do conteúdo. A orientadora desse trabalho vem observando as altas taxas de reprovação e as dificuldades na disciplina de Química Inorgânica 2 ministradas por ela ao longo dos anos. Nessa perspectiva, este trabalho objetiva elaborar uma sequência didática para o ensino de compostos de coordenação utilizando aspectos da química forense aplicados a partir da Aprendizagem Baseada em Problemas. A Aprendizagem Baseada em Problemas é entendida como uma proposta pedagógica que visa posicionar o aluno frente a problemas para os quais deverá achar a solução. Neste tipo de metodologia, o aprendizado ocorre na medida em que o professor traz para o ambiente educacional, problemas reais ou fictícios, fazendo com que os alunos se reúnam em grupos a fim de discutirem, estudarem e adquirirem novos conhecimentos (NASCIMENTO e COUTINHO, 2016). Esta pesquisa justifica-se pela possibilidade de inserção do produto educacional no plano de aula da disciplina de química inorgânica. Ao aproximar o conhecimento da realidade do aluno, objetiva-se alcançar resultados significativos no processo de ensino e aprendizagem, promovendo o protagonismo do educando na busca da resolução de problemas. A pesquisa se torna de extrema relevância, pois há poucas propostas para o ensino de Química Inorgânica e nenhuma na literatura, no que diz respeito à química forense relacionada à química inorgânica dos compostos de coordenação.

Material e métodos

A metodologia adotada para esta pesquisa configurou-se como pesquisa aplicada, visto que, entre os objetivos almeja-se a elaboração de um produto educacional. De acordo com Prodanov e Freitas (2013, p. 51) “a pesquisa aplicada: objetiva gerar conhecimentos para aplicação prática dirigida à solução de problemas específicos”, neste caso, esta pesquisa buscou a intervenção por meio da proposta de um produto educacional. Vale ressaltar que os produtos educacionais são ferramentas de ensino e aprendizagem, assim como livros, manuais, simulações, protótipos, jogos, software, sequência didática, entre outros. Eles permitem uma maior aproximação entre teoria e prática para uma aprendizagem mais crítica e significativa. A sequência didática elaborada baseou-se em metodologias já existentes para desenvolvimento de produtos educacionais, como por exemplo, a criada por Silva, Souza e Mepe (2018). As etapas utilizadas foram: compreensão do problema, projeção de soluções e construção do Produto Educacional. Após buscas na literatura a respeito de testes utilizados na ciência forense que envolviam compostos de coordenação, chegou-se ao teste colorimétrico de rodizonato de sódio para detecção de chumbo na identificação de disparos com armas de fogo. Na sequência, definiu-se a metodologia ativa da ABP para o desenvolvimento da sequência didática. No produto educacional, portanto, foi desenvolvido um material didático para o aluno partindo de um conto de mistério, onde ao identificar o problema, propõe- seque os estudantes solucionem o mistério utilizando a Aprendizagem Baseada em Problemas. Além do material desenvolvido para o aluno, elaborou-se também um material de apoio ao professor objetivando orientá-lo quanto às informações necessárias para auxiliar os alunos. Neste material, está contido: as explicações sobre o procedimento do teste, a relação deste com as cores observadas, os conhecimentos prévios que os estudantes necessitam, proposta de tempo de execução e etapas para aplicação da metodologia.

Resultado e discussão

PRODUTO EDUCACIONAL QUEM DISPAROU A ARMA DE FOGO? Dois irmãos, Daisy e Andinho, estão voltando para casa quando encontram uma arma de fogo no chão. Sem saber o quê fazer, levam-na para casa para tomar uma decisão. Curiosos, começam a brincar com a arma e a brigar por ela até que um disparo ocorre. A mãe, Dona Cidinha, aparece assustada na sala e pergunta o que estão aprontando. Um começa a acusar o outro de ter dado o tiro e ninguém quer assumir a culpa, sabendo do castigo que viria na sequência. Dona Cidinha se pronuncia: - Vamos chamar sua irmã, a Joice. Ela não estudou tanto para fazer Química à toa! Ela vai encontrar um jeito de dizer quem é o culpado de vocês dois. E quem for, vai se ver comigo! Joice, ao ser chamada pela mãe, chegou na sala com esparadrapo, papel de filtro e um spray contendo um líquido amarelo. Colou o esparadrapo nas mãos de cada um dos irmãos, em sequência transferiu para o papel de filtro. Borrifou algumas vezes o papel com o spray - O quê é isso que está nesse frasco, Joice? Perguntou Andinho - É uma solução de rodizonato de sódio? Respondeu Joice - Rô o quê?!?! Espantou-se Daisy A Figura 1 (EXAME,2019) mostra o quê ocorreu no papel de filtro. As manchas avermelhadas são da mão de Daisy e as amarelas da mão de Andinho. PROBLEMA A SER INVESTIGADO Após leitura da descrição investigativa, agora é com você e sua equipe de detetives. Qual versão dessa história é verdadeira? Qual teste a Joice precisará utilizar para comprovar a análise e o que ele revela? MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR Antes de partir para a investigação, fica como sugestão ao docente realizar as etapas abaixo: 1° passo: Junte os alunos em grupos de 4 a 5 pessoas, disponibilize cerca de 1h30min para o levantamento das hipóteses. Neste momento, não permita pesquisas na internet, o ideal é que as informações sejam reunidas a partir dos conhecimentos prévios. 2° passo: Após reunidas as informações, as pesquisas deverão ser iniciadas tanto de forma individual quanto coletiva. Oriente que os alunos reúnam-se fora do horário de aula para pesquisas, utilizando as fontes de consulta que desejarem, a fim de que encontrem para a resolução das hipóteses apresentadas. 3°passo: Na aula seguinte, os resultados das pesquisas devem ser apresentados. Neste momento, far-se-á necessária a elaboração de uma síntese das reflexões, onde as respostas encontradas sejam socializadas e debatidas e entregues ao professor. Os testes colorimétricos são mais utilizados para detecção rápida do suspeito e trajetória de disparo, necessita-se de confirmação posterior através de métodos mais sensíveis para que se possa descartar a idéia de um falso positivo (FREITAS et al., 2017). A presença de Pb nesse teste dá-se com o aparecimento de manchas vermelha-rosa após a reação com o rodizonato de sódio. Vale ressaltar que o teste colorimétrico também pode identificar a presença de Ba por meio do aparecimento de manchas alaranjadas. A reação química, conhecida como Reação de Feigl-Suter, é mostrada na Figura 2 (COSTA, 2016).

Figura 1

Resultado obtido por Joice após analisar as mãos dos irmãos

Figura 2

Reação química entre íons metálicos divalentes e rodizonato de sódio

Conclusões

Nesse trabalho descrevemos uma proposta educacional utilizando uma metodologia ativa associada a química forense para aproximar os compostos de coordenação do contexto de interesse dos estudantes. Para atingir esse propósito utilizamos o teste colorimétrico para identificação de disparos de arma de fogo introduzindo a temática com um conto. Não há muitos trabalhos na literatura que tragam propostas ativas de ensino para a abordagem de conceitos de Química Inorgânica. Até onde sabemos, para o ensino de compostos de coordenação com tópicos da ciência forense, esse é o único. Para as próximas etapas, esperamos que essa proposta seja utilizada na disciplina de Química Inorgânica 2 no campus Cabo Frio no segundo semestre de 2022 para que possa passar por uma avaliação e readequação, se necessário. Com a redação de um artigo, acreditamos também que outros professores possam trazer contribuições para o aprimoramento desse trabalho.

Agradecimentos

IFF

Referências

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