• Rio de Janeiro Brasil
  • 14-18 Novembro 2022

EFEITO NINFICIDA DOS EXTRATOS DA SEMENTE DO BIRIBÁ (Annona mucosa Jacq.) NO CONTROLE DA MOSCA-BRANCA (Bemisia tabaci)

Autores

Oliveira, M.V.S. (UFAM) ; Nogueira, P.A.D. (UFAM/ INPA) ; Santos, H.C. (UFAM/ INPA) ; Lima, M.P. (INPA) ; Silva, N.M. (UFAM)

Resumo

A Bemisia tabaci é um inseto fitófago de difícil controle, causador de prejuízos a diversas culturas de importância econômica, como a couve. Este estudo objetivou avaliar o efeito ninficida dos extratos de Annona mucosa sobre ninfas de B. tabaci biótipo B em couve (Brassica oleraceae var. acephala). As sementes do biribá foram secas e trituradas, sendo maceradas em água, obtendo o extrato aquoso. Os extratos orgânicos foram obtidos por maceração em lavadora ultrassônica. A CL50 obtida com os extratos aquosos foi de 4,9%, e foi utilizado nos testes com os extratos orgânicos. O extrato hexânico apresentou melhor resultado de mortalidade sobre as ninfas com 66,55%, demonstrando o potencial para o controle alternativo para as ninfas de B. tabaci.

Palavras chaves

Planta inseticida; Controle alternativo; Bemisia

Introdução

A mosca-branca (B. tabaci) é um inseto fitófago e sugador de seiva (BERNARDINO et al, 2019) considerada como a segunda praga invasiva mais difundida e economicamente importante do mundo, com relatos de resistência a 56 inseticidas diferentes, em 165 países (WILLIS, 2017). Mede de 1 a 2 mm de comprimento, 0,36 a 0,51 mm de largura, com dorso amarelo- pálido e asas brancas (SOUZA e VENDRAMIM, 2000) com as fêmeas podendo depositar entre 100 e 300 ovos durante seu ciclo de vida (BROWN e BIRD 1992). A sucção da seiva, principalmente pelas ninfas, reduz o vigor da planta e a deposição de excremento açucarado (honeydew) favorece a ocorrência da fumagina (Capnodium sp) (INBAR e GERLING 2008; NARANJO e LEGG 2010). Contudo o principal dano está relacionado à transmissão de fitovírus que causam nanismo severo, enrolamento das folhas, intensa clorose e diminuição da produção (HAJI et al, 2004; POLSTON et al, 2014). É uma praga de difícil controle devido a sua plasticidade genética, podendo rapidamente desenvolver resistência a inseticidas de diferentes grupos químicos (LOURENÇÃO et al, 2015), de modo que extratos de plantas com propriedades tóxicas a esta praga, são alvo de pesquisas em busca de um controle alternativo que atue em conjunto ao manejo integrado de pragas (EMILIE et al, 2015; ROCHA e SUJII 2019). Muitas famílias botânicas possuem plantas inseticidas atestadas cientificamente, contudo ainda há muitas outras a serem estudadas, como no caso das Annonaceaes, constituídas por cerca de 100 gêneros e aproximadamente 2.300 espécies (CHATROU et al, 2012), e apesar de sua grande diversidade, a quantidade de estudos destas plantas visando o controle de insetos pragas ainda é baixo, provavelmente devido a descoberta de suas propriedades inseticidas serem relativamente “recentes” (KRINSKI et al, 2014). Entre as Annonaceaes destaca-se a Annona mucosa Jacq., uma fruteira nativa da Amazônia e Mata Atlântica, popularmente conhecida como Biribá (FERREIRA et al, 2010), onde a maior expressão de seu potencial bioativo está nas sementes, segundo o conhecimento popular da região. Este trabalho teve como objetivo avaliar a atividade inseticida dos extratos aquoso e orgânico do Biribá (A. mucosa) no controle das ninfas da mosca- branca, B. tabaci, em condições de semi-campo.

Material e métodos

Os bioensaios foram realizados no Laboratório de Entomologia e Acarologia Agrícola (LEA) e casa de vegetação da área experimental da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA), ambos da UFAM. As análises de DNA dos insetos foram realizadas no Laboratório de Entomologia e Biotecnologia da Embrapa Arroz e Feijão, em Santo Antônio de Goiás/GO, utilizando a técnica PCR. Os resultados do biótipo analisado foram comparados com os trabalhos de Bosco et al, (2006) e Marubayashi et al, (2013). As coletas de B. tabaci e A. mucosa foram realizadas sob o cód. SISBIO: 77294 do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade. Os exemplares foram coletados da criação estoque em Manaus, com os Voucher Specimens depositados na coleção entomológica do LEA. As sementes de biribá foram coletadas no Sítio Vô Agenor (02°46’53,2” S, 60°08’11,4” W). A exsicata foi identificada no laboratório de botânica do ICB/UFAM, sob o cód. HUAM12267. O material vegetal foi seco em estufa de circulação de ar forçado a 40ºC e triturado em moinho de facas. Para a criação-estoque, as moscas-branca foram atraídas naturalmente da área experimental da FCA. Mudas de couve foram produzidas continuamente, utilizando sementes da marca Horticeres® Sementes variedade Folha Manteiga da Geórgia, em substrato Tropstrato HT Hortaliças® em tubetes de Ø=4 cm (55 cm3). A montagem dos bioensaios foram adaptados de Pena (2012). Para o preparo do extrato aquoso, o pó da semente de Biribá foi pesado de 1 a 5 g e diluído em 100 mL água destilada, obtendo-se as concentrações de 1, 2, 3, 4 e 5 % (m/v). A solução foi agitada por 15 min. e mantida em repouso por 24h. As amostras foram filtradas e aplicou-se 1 ml de cada, com auxílio da Torre de Potter (Burkard Scientific® 1kg/cm2), sobre as mudas de couve infestadas com as ninfas. Os extratos orgânicos foram obtidos a partir de 159 g de pó das sementes de A. mucosa, em gradiente de polaridade, partindo de hexano, sendo 100ml de cada em lavadora ultrassônica à 60°C/1h. Aplicou-se 1 ml de cada nas mudas infestadas, com auxílio da Torre de Potter. O teste de mortalidade se deu pela contagem de ninfas mortas observadas. A mortalidade natural corrigida foi calculada pela fórmula de Abbott (1925): Mc (%) = (%Mo - %Mt / 100 - %Mt) x 100, (onde: Mc = Mortalidade corrigida; Mo = Mortalidade observada; Mt = Mortalidade na testemunha). A estimativa da CL50 foi feita pela análise de Probit (FINNEY, 1971), utilizando o programa R®, nas concentrações de 1, 2, 3, 4 e 5%. O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado com 5 repetições (± 500 ninfas por tratamento). O teste de normalidade foi realizado utilizando o teste de Shapiro-Wilk, e quando constatada uma distribuição não normal, realizada a transformação dos dados em arcsen [{(x+0,5) /100})0,5]. A análise de variância foi realizada pelo teste F, e a comparação das médias pelo teste de Tukey (p<0,05), através do programa estatístico R.

Resultado e discussão

Todas as amostras das fêmeas adultas analisadas pelo teste de DNA coletadas em Manaus e Iranduba foram identificadas como a espécie B. tabaci Middle East Asia Minor 1 - MEAM1 (biótipo B). O material vegetal moído da semente do biribá gerou um pó com aspecto pastoso, demonstrando haver uma quantidade razoável de óleo fixo nas sementes. O teste inicial com o extrato aquosos da semente de A. mucosa (Tabela 1) apresentou uma mortalidade de 46,3%, um resultado muito promissor, sendo mais elevado do que a mortalidade alcançada pelo produto comercial registrado para o controle da mosca-branca, com ambos diferindo estatisticamente. Apesar de aproximados, o extrato aquoso do biribá à 5% ainda obteve um resultado superior ao produto comercial, evidenciando seu potencial de mortalidade sobre a mosca-branca. O extrato aquoso de espécies da família annonaceae vem sendo testado por autores em diversas aplicações em relação a sua bioatividade com resultados promissores, como Lima et al. (2019) que identificou efeito de imobilidade (64,4%) e mortalidade (23,24%) sobre Scutellonema bradys (conhecido como nematóide do inhame). O extrato aquoso é simples de ser preparado, e se apresenta como alternativa para a realidade de diversos produtores. A CL50 do extrato aquoso encontrado foi de 4,95% (Tabela 2). O resultado obtido nas concentrações de 1% e 2%, apesar do aumento da concentração, não diferiu estatisticamente. A partir deste ponto todo aumento de concentração foi estatisticamente diferente, atingindo a maior mortalidade de 56,35% na concentração mais elevada (5%). O resultado da CL50 demonstrou a progressão dos resultados conforme o aumento das concentrações, e tendo como base o resultado do produto comercial, todas as concentrações testadas apresentaram resultados notáveis que ultrapassaram os 30%, contudo, deve-se destacar a partir da concentração de 3%, com quase 40% de mortalidade, com a de 4% alcançando 44,5%, e a de 5% alcançando 56,34%. Ansante et al, (2015) encontraram uma CL50 com valor mais baixo para A. mucosa (842.9 mg kg-1) sobre Spodoptera frugiperda, contudo este resultado foi obtido com o extrato etanólico, e extrações com solventes orgânicos podem apresentar efeitos mais fortes devido a maior extração de substâncias ativas. Entre as extrações com solventes orgânicos das sementes de A mucosa, o maior rendimento foi obtido com a extração em hexano, com mais de 22% (Tabela 3). A extração hexânica resultou em um extrato com aspecto de óleo, que se torna líquido quando aquecido, mas que fica pastoso com aspecto gorduroso quando em temperatura ambiente. Os demais tiveram aspecto pastoso. Spletozer et al. (2021) relata a produção de substâncias com potencial inseticida de espécies da família annonaceae, como alcaloides e terpenos, e que podem estar presentes nestas extrações. Em uma análise previa dos dados de RMN 1H e 13C bem como os de CG-MS demonstram que o extrato hexânico possui uma quantidade elevada de ácidos graxos em sua composição, entre os principais constituintes químicos estão os ácidos oleico, linoleico, esteárico e palmítico. Entre os extratos orgânicos, o extrato hexânico foi o que apresentou melhor resultado, alcançando 66,5% de mortalidade (Tabela 4). Este resultado indica que as substâncias ativas extraídas em maior quantidade por esta metodologia são apolares. Os resultados de Soares et al. (2021) corroboram com estes resultados, pois ao testarem extratos das sementes de A. mucosa com diferentes solventes (Hexano, Diclorometano e Etanol) na concentração de 500 mg L-1 em tomateiro, obtiveram após 7 dias, mortalidades próximas a 100% em todos os extratos testados sobre as ninfas da mosca-branca, contudo, foram realizadas sucessivas extrações, com um tempo maior de maceração entre os solventes (3 dias), o que pode ter aumentado a extração das substâncias ativas presentes nas sementes. Um tempo maior de extração entre os solventes é recomendado em novos testes.

Figura 1



Figura 2



Conclusões

Os resultados obtidos são considerados promissores e atestam o potencial ninficida do extrato aquoso de A. mucosa sobre B. tabaci, de forma que este extrato se apresenta interessante para estudos futuros como possível alternativa de controle para a mosca-branca no contexto do Manejo Integrado de Pragas (MIP) em cultivos de couve.

Agradecimentos

A CAPES, ao PPGAT, ao LEA, a UFAM, ao LABCEM, ao Laboratório de Entomologia e Biotecnologia da Embrapa Arroz e Feijão de Santo Antônio de Goiás/GO, ao LQPN - INPA.

Referências

Ansante, T.F.; Ribeiro, L.P.; Bicalho, K.U.; Fernandes, J.B.; Silva, M.F.G.F.; Vieira, P.C.; Vendramim, J.D. Secondary metabolites from Neotropical Annonaceae: Screening, bioguided fractionation, and toxicity to Spodoptera frugiperda (J.E. Smith) (Lepidoptera: Noctuidae). Industrial Crops and Products, v. 74, p. 969-976, 2015.

Bernardino, C.R.F.; Mesquita, A.L.M.; Mota, M.S.C.S.; Gonçalves, N.G.G. 2019. Hábito alimentar de hemípteros fitófagos associados ao cajueiro no brasil: aleyrodidae e coreidae. In: Giovanni Seabra. (Org.). Terra – Habitats Urbanos e Rurais. 1ed. Ituiutaba: Editora Barlavento, 2019, v. 3, p. 838-845.

Bosco, D.; Loria, A.; Sartor, C.; Cenis, J. L. PCR-RFLP Identification of Bemisia tabaci Biotypes in the Mediterranean Basin. Phytoparasitica, v. 34, n. 3, p. 243-251, 2006.

Brown, J. K.; Bird, J. Whitefly-transmitted geminiviruses and associeted disorders in the Americas and the Caribbean Basin. Plant Disease, v. 76, n. 3, p. 220-225. 1992.

Chatrou, L. W. et al. A new subfamilial and tribal classification of the pantropical flowering plant family Annonaceae informed by molecular phylogenetics. Botanic Journal of the Linnean Society, v.169, n.1., p. 5-40, 2012.

Emilie, D.; Mallent, M.; Menut, C.; Chandre, F.; Martin, T. 2015. Behavioral Response of Bemisia tabaci (Hemiptera: Aleyrodidae) to 20 Plant Extracts. Journal of Economic Entomology, 108, 4: 1890–1901.

Ferreira, M. G. R. et al. Emergência e crescimento inicial de plântulas de biribá (Rollinia mucosa (Jacq.) Bill (Annonaceae) em diferentes substratos. Ciências Agrárias, v. 31, p. 373-380, 2010.

Finney, D.J. Probit analysis. Cambridge, England: Cambridge University Press, 1971. 31p.

Haji, F. N. P.; Ferreira, R. C. F.; Moreira, A. N. 2004. Descrição morfológica, aspectos biológicos, danos e importância econômica. In: Haji, F.N.P.; Bleicher, E. Avanços no manejo da mosca-branca Bemisia tabaci biótipo B (Hemiptera: Aleyrodidae). V.1. Embrapa Semi-Árido, Petrolina, Pernanbuco, p.21-30.

Inbar, M.; Gerling, D. Plant-mediated interactions between whiteflies, herbivores, and natural enemies. Annual Review of Entomology, v. 53, p. 431-448, 2008.

Krinski, D.; Massaroli, A.; Machado, M. Potencial inseticida de plantas da família Annonaceae. Rev. Bras. Frutic. v. 36, edição especial, p. 225-242, fev. 2014.

Lima, R.S; Muniz, M.F.S.; Costa, J.G.; Silva, K.B.; Behling, A. 2019. Extratos aquosos de Annona spp. e Croton heliotropiifolius sobre Scutellonema bradys e prospecção química dos composto. Summa Phytopathol. v. 45, n. 2. p. 233-224.


Lourenção, A.L.; Krause-Sakater, R.; Valle, G. E. 2015. Mosca-branca, Bemisis tabaci (Gennadius) biótipo B. In: Vilela, E.F.; Zuch, R.A. Pragas introduzidas no Brasil: insetos e ácaros. Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz. Piracicaba, São Paulo, p. 682-702.

Marubayashi, J. M.; Yuki, V. A.; Rocha, K. C. G.; Mituti, T.; Pelegrinotti, F. M.; Ferreira, F. Z.; Moura, M. F.; Navas-Castillo, J.; Moriones, E.; Pavan, M. A.; Krause-Sakate, R. At least two indigenous species of the Bemisia tabaci complex are present in Brazil. Journal of Applied Entomology, v. 137, n. 1, p. 113121, 2013.

Patrocinador Ouro

Conselho Federal de Química
ACS

Patrocinador Prata

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

Patrocinador Bronze

LF Editorial
Elsevier
Royal Society of Chemistry
Elite Rio de Janeiro

Apoio

Federación Latinoamericana de Asociaciones Químicas Conselho Regional de Química 3ª Região (RJ) Instituto Federal Rio de Janeiro Colégio Pedro II Sociedade Brasileira de Química Olimpíada Nacional de Ciências Olimpíada Brasileira de Química Rio Convention & Visitors Bureau