TÍTULO: “MANGANISMO” COMO TEMA GERADOR: UMA PROPOSTA DE ENSINO CTSA NA PRÁTICA CURRICULAR DE LICENCIANDOS EM QUÍMICA

AUTORES: PINHO, R.R. (SENAC RIO) ; SANTOS, I.C. (SENAC RIO) ; MESSEDER, J.C. (IFRJ)

RESUMO: Esse trabalho foi desenvolvido com licenciandos em Química do IFRJ/Campus Nilópolis, para que os mesmos exercitassem a prática como componente curricular, presente na disciplina Pesquisa em Ensino de Química. Optou-se pela utilização de temas geradores que abordavam riscos químicos em ambientes profissionais, sob uma ótica CTSA, usando como exemplo, os problemas causados pelo manganês na atividade de soldagem. Verificou-se que a totalidade dos alunos envolvidos desconhecia a doença chamada de “manganismo”, manifestada comumente nos profissionais dessa área de trabalho. Comprovou-se que a aplicação de temas socioculturais através dos alicerces científicos é uma atitude que deve ser mais exercitada por alunos e professores dos cursos de licenciatura em Química espalhados pelo Brasil.

PALAVRAS CHAVES: manganismo; temas socioculturais; ctsa.

INTRODUÇÃO: Não há como dispor de regras que garantam a segurança no manuseio cotidiano de todas as substâncias químicas comumente usadas nos diversos segmentos profissionais (SOTO, 1994). Para uma avaliação rigorosa, torna-se necessário considerar não só as características físico-químicas, a reatividade e a toxicidade, mas também as condições de manuseio, os tipos de exposição do trabalhador e as vias de penetração no organismo (BRASIL, 1999). Foi realizada uma revisão da literatura sobre as complicações para a saúde causadas por uma doença conhecida como "doença do soldador", o manganismo, tendo ênfases na identificação dos fatores de riscos para o trabalhador, na toxicocinética e na toxicodinâmica do manganês, na sintomatologia da intoxicação e nos índices biológicos da exposição a este metal (PINHO, 2011). Essa revisão norteou a presente pesquisa, que teve como objetivo geral conduzir os licenciandos em Química ao exercício dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas do núcleo curricular básico, usando uma abordagem educacional sob uma ótica Ciência-Tecnologia- Sociedade-Ambiente (CTSA), de forma que tais propostas de ensino ocorram de fato e atuem na práxis educacional. Faz-se necessária uma nova configuração curricular na abordagem de assuntos científicos com relevância social associada à problematização das construções históricas, enfatizando os aspectos do cotidiano que integram os diversos saberes das áreas de conhecimentos acadêmicos tradicionais. Segundo Nascimento e Linsing (2004), deve-se promover a reflexão sobre os fenômenos sociais e a condição da existência humana sob a perspectiva da ciência e da técnica numa análise das dimensões sociais do desenvolvimento tecnológico.

MATERIAL E MÉTODOS: Os sujeitos da pesquisa foram 24 alunos freqüentadores da disciplina Pesquisa em Ensino de Química, do curso de licenciatura em Química do IFRJ/Campus Nilópolis, no 1º semestre de 2011. A primeira etapa do trabalho seguiu uma ótica CTSA, na busca de despertar o interesse e a atenção de licenciandos para assuntos ligados ao aprendizado da química do cotidiano. Foi idealizada uma aula expositiva-participativa, intitulada: Manganismo e Atividade do Soldador. Durante a segunda parte do trabalho em sala de aula foram confeccionados e aplicados questionários individuais, semi-estruturados em questões abertas, com a finalidade de diagnosticar o grau de conhecimento e envolvimento dos alunos com o tema central, e com questões relativas à segurança química, com perguntas do tipo: “Você sabe que é manganismo? Quais as doenças que você conhece que são causadas por substâncias químicas? Você tem noções de toxologia química? Como você avalia seus conhecimentos sobre procedimentos de segurança? Onde você considera importante que o professor aprenda sobre segurança química: ( ) disciplinas da graduação ( ) curso de aperfeiçoamento ( ) curso de pós-graduação ( ) outros? Onde você teve instruções sobre riscos químicos? Você julga importante uma disciplina na graduação que aborde riscos químicos? Dê uma sugestão de título. Com relação ao uso de temas geradores para elaboração de planos de aulas foram feitas as seguintes perguntas: “Você se sente apto a usar temas geradores em suas aulas no estágio curricular supervisionado? Se existem dificuldades para o uso desse recurso, quais são elas? Você considera que manganismo é um bom tema para aulas de química no ensino médio? Por quê? Os dados obtidos dos questionários serviram de base para a discussão dos resultados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO: Em etapa preliminar, verificou-se que os livros didáticos usados na rede municipal de Nilópolis, no que se refere a temas socioculturais, possuem pouca abrangência, tendo apenas exemplos de contextualização entre ensino de Química e outras áreas do conhecimento científico. Foi visto que os licenciados envolvidos na pesquisa não tinham nenhum conhecimento sobre o tema principal, nem sobre outros temas, a fim de usá-los como recursos complementares em suas aulas e, deste modo, potencializar o aprendizado dos alunos. A temática despertou o interesse e atenção dos alunos ao assunto riscos químicos em ambientes de trabalho. Os resultados mostraram que a maioria dos futuros professores (75%) considera manganismo um bom tema para suas aulas, devido à importância dada ao enfoque (Química, Saúde e Meio Ambiente) . Entretanto, tais licenciandos (87%) se sentem mal preparados para elaborar planos de aulas diferentes dos tradicionais. Houve relatos de que na graduação, em especial, nas licenciaturas, a abordagem em Segurança Química se restringe quase que exclusivamente aos prefácios das apostilas das disciplinas experimentais. Alegam que os cursos carecem de disciplinas obrigatórias, intituladas pelos alunos como, por exemplo: Toxologia Química, Segurança Química e Riscos Químicos no Cotidiano. Mencionaram também que o professor não está preparado para situações emergenciais em laboratórios, conhecendo apenas as normas teóricas de segurança, e sendo pouco instrumentados para procedimentos de primeiros socorros em situações reais. Todos os alunos aprovaram o uso de temas socioculturais, principalmente nos estágios curriculares supervisionados. Além disso, foi possível contemplar a execução da prática, como componente curricular, exigida aos cursos de licenciatura (BRASIL, 2002).

CONCLUSÕES: De um modo geral, os professores de Química ficam presos aos conteúdos preconizados pelos PCN, e se esquecem da criatividade para novas metodologias nas salas de aulas. A discussão sobre manganismo contribuiu para que a elaboração de planos de aulas não fosse “engessada” aos livros didáticos. O tema contribuiu para que licenciandos pudessem reconhecer a importância do cotidiano no processo de ensino e aprendizagem, sendo um momento propício para relacionar suas concepções prévias com o assunto abordado. Além disso, estimulou a compreensão dos fatos de maneira sensitiva e não apenas cognitiva.

AGRADECIMENTOS: Aos alunos matriculados na disciplina Pesquisa em Ensino de Química, do curso de Licenciatura em Química do IFRJ/Campus Nilópolis, que participaram da pesquisa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA: BRASIL, Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP 2/2002. Diário Oficial da União, Brasília, 4 de março de 2002. Seção 1, p. 9.
BRASIL, Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho. Legislação de segurança e saúde no trabalho. Brasília (DF). Ministério do Trabalho e Emprego, 1999.
GANA SOTO, J. M.O.; DUARTE SAAD, I. F. S.; FANTAZZINI, M. L. Riscos Químicos. São Paulo. FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho, 1994.
PINHO, R. R. Manganismo ou doença do soldador: complicação causada pelo processo de soldagem. Trabalho de conclusão de curso (MBA em Gestão Integrada em Saúde, Meio Ambiente e Segurança), Faculdade de Tecnologia SENAC RIO, Rio de Janeiro, 2011.
VON LINSINGEN, I. Perspectiva educacional CTS: aspectos de um campo em consolidação na América Latina. Revista Ciência e Ensino, Edição Especial, v.1, nov. 2007.