Autores

Belém, M.V.N. (UEA) ; Sousa, B.S. (UEA) ; Santos, K.V.B. (UEA) ; Graça, I.R.S. (UEA) ; Almeida, H.L. (UEA) ; Silva, H.M. (UEA) ; Ribeiro, J.R. (UEA) ; Dutra, R.D.G. (UEA) ; Assis Júnior, P.C. (UEA) ; Eleutério, C.M.S. (UEA)

Resumo

Este estudo foi desenvolvido na Comunidade São Pedro do Parananema, município de Parintins-AM, envolveram 3 professores, 6 alunos e 20 comunitários. Com este estudo pretendia-se coletar informações a respeito da fitoterapia da espécie vegetal Crataeva benthami (Catauari). As informações foram obtidas através de entrevistas que confirmaram os estudos desenvolvidos por Silva e Oliveira (2015); Silva, Fraxe (2014) e outros pesquisadores. Os diálogos etnográficos de modo geral, possibilitaram a vinculação dos saberes tradicionais aos saberes científicos, estimularam o resgate e o fortalecimento da cultura local. Daí a importância de se referenciar o conhecimento tradicional, na busca de práticas que considere, sobretudo, a dimensão cultural e socioambiental do caboclo da Amazônia.

Palavras chaves

Fitoterapia; Catauari; Diálogos Etnográficos

Introdução

A região Amazônica considerada a maior floresta tropical do mundo, apresenta uma diversidade de espécies vegetais com potenciais fitoterápicos como o Crataeva benthami da família Capparaceae, conhecida no Baixo Amazonas como catauari. De acordo Pereira Júnior (2005) essa espécie arbórea, é comum em áreas de várzea podendo alcançar de 6 a12m de altura. A população ribeirinha faz uso de suas cascas em formulações antissépticas e contra veneno de cobra. Das raízes e das folhas são produzidos remédios para problemas estomacais e reumatismo. O fruto é alimento de peixes conhecidos na região do Amazonas como: matrinxã (Brycon cepahlus), pacu (Metynnis sp.,Mylesinus sp., Myleus sp., Mylossoma sp.) e tambaqui (Colossoma macropomo). A atividade de campo denominada “diálogos etnográficos” foi realizada com 20 moradores da Comunidade de Parananema no município de Parintins-AM. Os diálogos foram conduzidos por seis alunos do Curso de Licenciatura em Química que utilizaram um roteiro de entrevista com questões pré-definidas. Após a coleta de informações os resultados foram sistematizados, apresentados e debatidos em sala de aula para que todos os alunos tomassem conhecimento dos trabalhos desenvolvidos pelos grupos. Participaram do debate dois professores com formação em química e um professor de filosofia que pesquisam a respeito dos Saberes Tradicionais e a sua relação com a Educação Química na Amazônia. Os diálogos mostraram que alguns moradores da comunidade investigada conhecem diferentes tipos de formulações onde são utilizadas as cascas e as folha do Crataeva benthami. As informações obtidas foram confirmadas pelos estudos desenvolvidos por Silva e Oliveira (2015); Silva e Fraxe (2014); Oliveira (2008), Pereira Júnior (2005) e outros pesquisadores.

Material e métodos

Este estudo se caracteriza como qualitativo do tipo etnográfico. De acordo com Minayo (2011 e 2002) os elementos da pesquisa qualitativa ajudam aprofundar aquilo que não é visível, isto é, direciona o olhar para o mundo dos significados das ações e relações dos sujeitos, das causas, das pretensões, das crenças, dos valores e das atitudes na compreensão e interpretação da realidade. A pesquisa do tipo etnográfica segundo Rocha e Eckert (2008) se constitui no exercício do olhar (ver) e do escutar (ouvir). Impõe ao pesquisador deslocamento de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ele observado através de sua participação efetiva nas formas de sociabilidade por meio das quais a realidade investigada se apresenta. Tomando como base os estudos de Geertz (2014), ressalta-se, que a prática etnográfica não consiste apenas na observação e no registro dos fatos, mas fundamentalmente na interpretação dos significados de ações e situações vivenciadas pelos sujeitos que estão sendo observados e/ou investigados. Os alunos reuniram-se em grupo de 6 componentes e identificaram em áreas alagadas, nas proximidades da Comunidade São Pedro do Parananema no município de Parintins-AM, o Crataeva benthami. Após esse procedimento, realizaram entrevista com 20 moradores da referida comunidade. Os diálogos foram transcritos, mantendo a fidelidade dos conteúdos. Os resultados foram sistematizados, analisados, apresentados e debatidos em sala de aula para que todos os alunos tomassem conhecimento dos trabalhos desenvolvidos pelos grupos. Os debates foram mediados por dois professores de química e um professor de filosofia da ciência que pesquisam e discutem sobre os Saberes Tradicionais e a sua relação com a Educação Química na Amazônia.

Resultado e discussão

A espécie Crataeva benthami pertencente a família Capparaceae (Figura 1) foi identificada pelos alunos em uma área de várzea nas proximidades da Comunidade São Pedro do Parananema. Foram entrevistadas 20 pessoas, homens e mulheres, com idade entre 20 a 90 anos. Das 20 pessoas entrevistadas, 9 disseram que o sumo da casca do Crataeva benthami misturado em água, serve para picada de cobra, 7 afirmaram que a casca raspada embebecida em álcool é bom para reumatismo e 4 comentaram que serve para qualquer dor no corpo. Em relação ao fruto, 11 pessoas confirmaram que algumas espécies de peixes se alimentam do fruto Crataeva benthami. Esses diálogos confirmam os estudos desenvolvidos por Silva e Oliveira (2015); Silva e Fraxe (2014); Oliveira (2008), Pereira Júnior (2005) e outros pesquisadores. As informações a respeito da idade e sexo dos atores investigados estão alocadas no gráfico abaixo (Figura 2): Os resultados demonstram que dos 20 investigados 12 foram consideradas pessoas mais velhas, o que nos possibilitou afirmar que o conhecimento que elas detêm a respeito do gênero Crataeva benthami não foi adquirido em salas de aulas convencionais, nem está escrito em manuais, trata-se, portanto, de um tipo de conhecimento resultante dos processos, práticas e atividades tradicionais vivenciadas e desenvolvidas nas aldeias e comunidades tradicionais. Esse conhecimento de acordo com Caetano (2016) é passado de geração em geração, e parte dos mais velhos aos mais novos, na maioria das vezes, a transmissão desses conhecimentos se dá de forma oral. Ele faz parte do modo de vida da comunidade, de sua cultura, mesmo quando poucas pessoas da comunidade detêm esse conhecimento. Esses ditos foram confirmados durante a realização deste estudo.

Figura 1- Identificação da Crataeva benthami



Figura 2- Dados dos sujeitos entrevistados da Crataeva benthami



Conclusões

De modo geral, podemos avaliar que os diálogos etnográficos se configuram numa estratégia de resgate e fortalecimento da cultura local e torna-se a forma mais importante e confiável de validar os saberes científicos, reduzindo os experimentos básicos de laboratório e indo rapidamente às confirmações dos extratos fitoterápicos já utilizados há anos nos aldeados indígenas e nas comunidades tradicionais. Daí a importância de se referenciar o conhecimento tradicional, na busca de práticas sustentáveis que considere, sobretudo, a dimensão cultural e socioambiental do caboclo da Amazônia.

Agradecimentos

Aos moradores da Comunidade São Pedro do Parananema; aos professores Renner Dutra e Dilce Pio pelas valiosas orientações.

Referências

CAETANO, Eduardo Paixão. Conhecimento tradicional e seu valor ambiental de máxima grandeza. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIX, n. 148, maio 2016.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. 1. Ed. [Reimpr.]. Rio de Janeiro: LTC, 2014.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 11. ed. HUCITEC, 2011.
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PEREIRA JUNIOR, Raimundo Carlos. Estudo fitoquímico e avaliação da potencialidade farmacológica de extratos de Crataeva benthami (Capparaceae). Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Recursos Naturais, Mestrado em Biotecnologia, Universidade do Estado do Amazonas Manaus, 2005.
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