Autores

Nascimento, C. (UFRJ) ; Moreno, E. (UFRJ)

Resumo

O ensino de Química, em especial da Tabela Periódica, é apresentado em muitas ocasiões de maneira monótona e uma exposição desinteressante é um dos questionamentos de alunos do ensino fundamental e médio. O uso de Metodologias ativas é uma alternativa para tornar a aprendizagem da disciplina em um espaço de autonomia e motivação, auxiliando a percepção dos assuntos de maneira dialógica e argumentativa. Nessa perspectiva a elaboração de paródias, por parte dos estudantes, busca promover uma alternativa significativa de exposição dos conteúdos, a fim de propiciar o desenvolvimento de habilidades como a conexão de uma linguagem popular a uma linguagem científica, a criatividade e interação entre os alunos.

Palavras chaves

ensino de química; metodologias ativas; elementos químicos

Introdução

Uma crítica que já ganhou lugar comum na sociedade é que as aulas no ensino brasileiro têm sido ministradas de forma excessivamente conteudistas, com pouca ou nenhuma ênfase no contexto do aluno. Mesmo para a Química, que é uma Ciência notadamente experimental, não são raras as vezes que seu exercício em sala de aula se apresenta de forma monótona, distante da realidade, dificultando o interesse e a afeição dos alunos. Uma das alternativas para tornar o aprendizado mais dinâmico e envolvente são as chamadas metodologias ativas de ensino, pois Enquanto que o método tradicional prioriza a transmissão de informações e tem sua centralidade na figura do docente, no método ativo, os estudantes ocupam o centro das ações educativas e o conhecimento é construído de forma colaborativa. (DIESEL, BALDEZ e MARTINS, 2017, p. 271) As metodologias ativas de ensino incluem o aluno como um agente essencial do processo de ensino-aprendizagem. Elas surgem como uma alternativa para repensarmos, enquanto professores, a forma como as disciplinas são apresentadas, em especial em face do crescente desinteresse pelas metodologias tradicionais de ensino (FRANCISCA-SILVA, SALES e SILVA, 2017). Elas existem a partir da elaboração de uma situação problema que estimula à reflexão crítica do educando e, para superá-la deverá que adquirir o conhecimento (MACEDO et al., 2018). O docente deve proporcionar o sentimento de que o aluno é capaz de resolver as questões que lhes são propostas. Uma metodologias ativas mais bem sucedidas para o ensino e aprendizado é a utilização da música. Quando pertinentemente associada, elas conjugam diversos aspectos com o aprendizado, como: as sensações, reflexão, afeto, tranquilidade, alegria etc. (COUTINHO e HUSSEIN, 2013). Um corolário é o aluno sente-se mais engajado e tende a valorizar mais o conteúdo (SILVEIRAS e KIOURANIS, 2008). Dito de outra forma, a aplicação de músicas permite estabelecer uma ligação mais forte entre o saber e o cotidiano do aluno. Há diversas metodologias ativas que podem ser aplicadas com a música. Neste trabalho, abordarermos as paródias, que já tem sido uma das opções valorizadas em sala-de-aula (TORRES, 2017). As paródias consistem em um recriação de uma obra já existente, mantendo-se a mesma estrutura do ritmo e melodia. Conforme ressalta Torres (2017, p.14) O uso de paródias como recurso pedagógico no ensino-aprendizagem, de uma forma lúdica, incentiva o educando a pesquisar como adequar conteúdos de Química aos seus cotidianos na música a ser parodiada. Durante a pesquisa o educando é incentivado à leitura e à produção textual, refinando assim sua capacidade de interpretar, compreender, criticar, resignificar e produzir conhecimento. Compreende-se que esta prática favorece as habilidades supracitadas. Para funcionar como tal, os docentes devem se inserir e ressignificar no universo imagético dos alunos, de forma a valorizar as escolhas dentro do universo didático-pedagógico da disciplina de Química (BARBOSA-SILVA, 2013). A possibilidade do uso de paródias não deve ser desenvolvida como um trabalho qualquer para os alunos, buscando enfatizar apenas a memorização, mas é relevante proporcionar a identificação de informações destacadas nas aulas e conduzi-los a participarem ativamente do aprendizado. O assunto da Tabela Periódica foi escolhido em função de acompanhar todo o segmento estudantil do aluno, desde a série final do fundamental ao ensino médio, além de ser uma ferramenta utilizada por estes diante de vários outros assuntos, colaborando para uma percepção didática da sua relevância. Ademais, cabe salientar, que em 2019, neste ano, é comemorado o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos e é mais um motivo para reafirmar sua importância e contribuição para o campo científico (UNESCO, 2019). O objetivo deste trabalho é analisar o uso da música e, em particular, das paródias, como alternativa para o aprendizado de conceitos relacionados aos elementos químicos. Ao final, vamos analisar como tal atividade proporcionou aos alunos a compreensão do conteúdo e a motivação em desenvolver uma correlações diferenciadas.

Material e métodos

A metodologia utilizada neste artigo envolve a observação participativa, que consiste em uma experiência direta do observador com o grupo em observação, procurando revelar a significação dos comportamentos e atitudes. Além disso, o investigador interessa-se na dinâmica de um grupo no seu meio natural, e não somente no recolhimento de respostas individuais às questões, sendo possível perceber emoções e ações dos participantes em uma identidade grupal, de uma maneira que não seria possível obter a partir de um simples questionário (MÓNICO et al., 2017). A prática foi realizada em uma escola particular no município de Nilópolis - RJ, em uma turma do 9º ano do ensino fundamental, com 30 alunos ao todo, divididos em cinco grupos. A eles foi proposto que criassem paródias relacionadas ao tema Tabela Periódica. Foram utilizadas quatro aulas, com tempos de 50 minutos, para o desenvolvimento desta atividade, organizadas da seguinte forma: 1) exposição do assunto; 2) construção e observação de paródias; 3) apresentação dos resultados; e 4) momento de diálogo. Na primeira aula houve a explanação da temática, em que se discutiu sobre as principais características dos elementos da Tabela Periódica, além da aplicação de exercícios. Na segunda aula, foram expostos vídeos com paródias relacionadas ao tema, disponibilizados no youtube. Também ocorreu uma conversa com os alunos sobre a criação de paródias e como a criatividade era um aspecto importante a ser utilizado por estes. Na terceira aula, continuou-se destacando o conteúdo, além de haver uma orientação final acerca da construção de paródias e o esclarecimento sobre o conceito de plágio. E na última aula, os grupos apresentaram suas paródias e argumentaram sobre como cada paródia relacionava-se ao conteúdo exposto das aulas anteriores.

Resultado e discussão

Ao todo, foram produzidas cinco paródias após a proposta da atividade. Para efeito de análise, selecionamos três delas que consideramos mais representativas (Quadro 1). Em alguns trechos das letras das músicas dos grupos 1, 2 e 3, notamos a colocação dos tópicos referentes ao estudo dos Elementos Químicos na Tabela Periódica, como por exemplo as citações do grupo 1: “Período vertical e horizontal / Tem os metais e os não metais”, no grupo 2: “Tem 7 colunas e tem 2 grupos / O grupo A são os metais representativos / E o B de transição interna / Os lantanídeos e os actinídeos também são de transição” e no grupo 3: “No total são 18, no baile da tabela / Família é 18 /Tem os alcalinos e os terrosos”. No momento do diálogo com a turma, houve uma confirmação acerca das observações de Wermann et al. (2011), no qual afirma que a criação das músicas, em geral, motiva os alunos a compreenderem melhor alguns termos científicos que têm sido apresentados nas aulas, de maneira ativa, instigando-os a captar novos conceitos e proporcionando uma aprendizagem significativa. Ferreira (apud ROSA e MENDES, 2002) destacam que a música contribui para o ensino de Química, despertando novas alternativas, que não sejam apenas de apresentação verbal dos conteúdos. Esse método de avaliação contribuiu para que os alunos desenvolvessem sua participação e seu envolvimento no conteúdo, buscando enfatizar como o uso da música pode ser um método de exposição didático dos assuntos. Ao término das atividades, percebemos que uma parte dos grupos conseguiu colocar nas letras das músicas, os conteúdos evidenciados nas aulas, enquanto outros foram bem sucintos. Os grupos que tiveram dificuldade em transpor os termos científicos nas músicas, ao longo das aulas, relataram que estavam habituados apenas com aulas tradicionais e que para desenvolver as canções precisariam de criatividade, uma característica que não eram estimulada nas aulas da maior parte das disciplinas. Eles também destacaram a necessidade de estudar o tema estipulado para a elaboração das canções, pois não seria possível empregar os conceitos químicos sem a compreensão correta destes. Este é, afinal, um dos principais objetivos da prática proposta. Silveiras e Kiouranis (2008) expressam que a música evidencia temas com amplas capacidades de problematização, e tal característica auxilia o estudantes a notarem como a pesquisa por informações, referentes ao conteúdo, contribui para uma percepção singular no ensino. O entusiasmo dos estudantes, a cooperação dos grupos na audição das apresentações e os destaques dos pontos mais importantes dessa atividade, resultou em um processo colaborativo da aprendizagem, propiciando um interesse que não havia nas aulas tradicionais desenvolvidas anteriormente. E como Diesel, Baldez e Martins (2017) salientam que no método tradicional os estudantes apresentam uma postura passiva, no método ativo seus saberes são valorizados, contribuindo para sua motivação e envolvimento na disciplina. Ao finalizar, praticamente toda a turma foi favorável à atividade proposta e que esse recurso, tal como aplicado, poderia ser ampliado para outras disciplinas.

Quadro 1- Paródias dos grupos 1, 2 e 3



Conclusões

Conforme previsto por Paiva et al. (2016) a utilização de músicas, no ensino dos Elementos Químicos, viabilizou aos alunos observarem a disciplina de forma diferenciada, colocando-os em um papel ativo na aprendizagem da Química, pois nesta proposta educacional é incontestável ver o ensino como uma simples transmissão de informações, sendo essencial a participação do aluno na construção e significação de tais saberes. Destaca-se que a criação de músicas/paródias não devem ser utilizadas como material exclusivo para o processo ensino-aprendizagem, mas como um recurso complementar, na qual são alcançados outros benefícios, conforme descritos neste artigo. Nesse sentido, enfatizamos a necessidade de métodos alternativos de aprendizagem, que não conduza os discentes a serem apenas ouvintes dos conteúdos, mas que possibilite a autonomia, a reflexão e colaboração na compreensão do tema. A atividade contribuiu para o reconhecimento da importância do uso das Metodologias Ativas, isto porque promoveu-se o desenvolvimento de habilidades nos alunos, tais como: criatividade, motivação, socialização; contribuindo para que eles pudessem identificar e interpretar conceitos químicos de maneira colaborativa e didática.

Agradecimentos

Referências

BARBOSA-SILVA, F. A utilização da música como instrumento didático pedagógico no ensino de Química Orgânica. Monografia. UEPB, 2013, 76f.

COUTINHO, L. R.; HUSSEIN, F. R. G. S. A música como recurso didático no ensino de Química. IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. SP, 10 a 14 nov., 2013.

DIESEL, A.; BALDEZ, A. L. S.; MARTINS, S. N. Os princípios das metodologias ativas de ensino: uma abordagem teórica. Revista Thema. V. 14, n. 1, p. 268-288, 2017.

FRANCISCA-SILVA; SALES, L. L. M.; SILVA, M. N. O uso de metodologias alternativas no ensino de Química: Um estudo de caso com discentes do 1º ensino médio no Município de Cajazeiras-PB. Revista de Pesquisa Interdisciplinar, Cajazeiras, n. 2, p. 333-344, 2017.

MACEDO, K et al. Metodologias ativas de aprendizagem: caminhos possíveis para inovação no ensino em saúde. Escola Anna Nery, EEAN, 2018.

MÓNICO, L, et al. A observação participante enquanto metodologia de investigação qualitativa. CIAIQ, Investigação Qualitativa em Ciências Sociais, v. 3, p. 724-733, 2017.

PAIVA, M. R. F.; PARENTE, J. R. F.; BRANDÃO, I. R.; QUEIROZ, A. H. B. Metodologias ativas de ensino-aprendizagem: Revisão Integrativa. Sanare. Sobral, v. 15, n. 2, p. 145-153, 2016.

ROSA, D. L.; MENDES, A. N. F. A música no ensino de Química: uma forma divertida e dinâmica de abordar os conteúdos de Química Orgânica; XVI Encontro Nacional de Ensino de Química. BA, 17 a 20 jul, 2012.

SILVEIRAS, M. P.; KIOURANIS, N. M. M. A música e o ensino de química. Química Nova na Escola. n. 28, p. 28-31, 2008.

TORRES, A. L. Integrando música e Química: uma proposta pedagógica alternativa de aprendizagem significativa. Dissertação. UFF, PPECN, [s n.], 95f, 2017.

UNESCO. Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, 2019. Disponível em <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/prizes-and-celebrations/2019-international-year-of-the-periodic-table-of-chemical-elements/>. Acesso em 11 de maio de 2019.

WERMANN, N. S. et al., Música – Paródia: uma ferramenta de sucesso no ensino de Química. XII Salão de Iniciação Científica. PUC, RS, 03 a 07 out, 2011.