Autores

Martins Júnior, F.R.F. (UECE) ; de Lima, J.O.G. (UECE)

Resumo

O Ensino de Química atual deve estar baseado nos princípios que norteiam o movimento da Didática das Ciências. Um destes, é o mapeamento cognitivo, que atesta para o fato de que a promoção de aprendizagem com significado tende a ser obtida em clima de telecolaboração, tanto por aluno quanto por professores. Buscou-se através desta pesquisa a integração do ensino de química, com o mapeamento cognitivo e telecolaborativo, através de uma metodologia de caráter experimental, com cinco professores de química em formação inicial no curso de Licenciatura em Química da UECE-FAFIDAM em Limoeiro do Norte, interior do Ceará. Um resultado ímpar obtido ao final da pesquisa foi a expressão de alguns princípios didáticos que devem estar atrelados a práxis do professor de química.

Palavras chaves

Didática das Ciências; Mapeamento Cognitivo; Telecolaboração

Introdução

O percurso da formação inicial do professor de química deve orientá-lo a uma prática docente investigativa e transformadora. A práxis deste profissional necessita estar carregada de intenção e responsabilidade pedagógica. Espera- se, portanto que cada ação docente educativa seja acompanha de criticidade e reflexividade, para que o ensino de química a ser promovido seja ressignificado com base em uma renovação didática. Inerente a este pressuposto atual, um ramo do conhecimento específico se configura como emergente, sendo denominado por pesquisadores da área como a Didática das Ciências. Para este olhar Lima (2013), defende que o ensino do professor de ciências (Química no caso), deve considerar a grande demanda na produção de saberes e tecnologias. Não cabe mais na sociedade vigente um sistema educacional que ainda preze pela fragmentação do conhecimento, pois este não consegue mais responder de uma forma mínima as demandas atuais oriundas da transição da era da informação para a era do conhecimento. Desta feita, não cabe pensar que a formação docente inicial em química, deva ocorrer de forma isolada, embora tenha-se que respeitar a autonomia epistemológica desta ciência. Lima ressalta a importância à ser dada a interdisciplinaridade como princípio formativo para professores de ciências. Tal princípio segundo este pesquisador, torna-se um eixo integrador e articulador entre a Química, a Biologia, a Física e a Matemática, fazendo com que a ideologia curricular destas ciências naturais, tenha repercussão não meramente conteudista, mas também no contexto social. Lima (2013, p.6), nos alerta para o fato de que deve haver uma reflexão profunda acerca do ensino de ciências, revelando-se assim, o respaldo deste ensino para a vida do homem contemporâneo. Esse aponte, também deve ser tratado na formação de professores. Surge então a necessidade de revisão desta formação, principalmente em sua etapa inicial, para que a esta sejam incorporadas aquisições de pesquisas modernas sobre o processo de desenvolvimento da aprendizagem em ciências, notoriamente as propostas de orientação construtivista (CARVALHO E GIL-PEREZ, 2011). Procura-se com este fato diminuir a relevante discrepância entre o foco pretendido pelos sintetizadores do currículo das ciências, e a prática docente em sala de aula desenvolvida pelos professores que buscam seguir os princípios teóricos deste currículo. A Didática das Ciências pode ser um componente curricular na formação inicial do professor de química, através dos seus princípios norteadores (interdisciplinaridade, por exemplo), propiciando a esta etapa formativa um conjunto de habilidades específicas que se configuram como necessidades formativas. Tais necessidades são indispensáveis ao exercício do magistério, haja vista que, sendo supridas, norteiam antecipadamente a práxis, contribuindo, portanto, com o desenvolvimento docente deste profissional, o que acarretará numa possível renovação do ensino de química. (CACHAPUZ, et al, 2011) O que é esperado com esta formação, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino de Química, é que em território brasileiro a abordagem educativa desta ciência seja alterada, de uma postura tradicional centralizada na oralidade do professor, para uma postura emancipatória. Aqui se remete novamente a orientação construtivista defendida por Carvalho e Gil-Perez, no sentido de que a aprendizagem em química a ser construída por um adequado ensino do professor, convirja para a evolução cognitiva do aluno. Este desenvolvimento cognitivo pode ser obtido através de uma adequada assimilação de conteúdos, por meio da compreensão, interpretação e utilização dos fenômenos químicos, oriundos das transformações ocorrentes na natureza. (BRASIL, 1999). Contextualizando esta formação inicial do professor promovida nos cursos de Licenciatura em Química espalhados pelas Instituições de Ensino Superior (IES) do país, notam-se inúmeras carências formativas que necessitam ser supridas. Sobre esta fato Costa et al (2014), interpretando as ideias de Schnetzler (2008), Silva e Oliveira (2009), atesta para o fato de que tais cursos, orientam seus professores que ensinar é uma tarefa simplória, bastando ao professor um certo conhecimento químico, e um razoável domínio técnico-pedagógico. Despreza-se assim um aprofundamento epistemológico para a compreensão empírica da Química, dificultando o relacionamento deste saber com uma prática pedagógica inovadora, o que não acarretará numa adequada transposição didática dos conteúdos químicos. O que justificou esta pesquisa foi dinamizar a formação inicial de cinco professores de química, baseadando-a em alguns dos principais princípios da didática das ciências, tais como: algumas teorias educacionais, utilização das TICs (AVA, softwares educacionais, artigos científicos eletrônicos) e o mapeamento cognitivo e telecolaborativo.

Material e métodos

Esta pesquisa se caracterizou como explicativa, pois teve por objetivo indicar como o planejamento didático auxiliado pelo uso das TICs, fomentou a promoção do desenvolvimento cognitivo e telecolaborativo, de professores de química em formação inicial. (GIL, 2002) O campo da pesquisa foi delimitado por uma turma de Didática Geral (composta por quarenta e um alunos das licenciaturas de ciências naturais, trinta e um de matemática, três de biologia, dois de física e cinco de química, estes últimos foram o público-alvo da pesquisa), do curso de Licenciatura Plena em Química, do semestre 2014.2, da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM), campus da Universidade estadual do Ceará (UECE), situado em Limoeiro do Norte, cidade do vale jaguaribano no interior do Ceará. Para a expressão dos princípios didáticos oriundos desta parte da formação inicial deste cinco licenciandos em química, foram coletadas postagens telecolaborativas do AVA Facebook, disponível em: https://www.facebook.com/groups/1460777994200075/. Estas postagens foram elaboradas e sintetizadas ao longo das atividades didáticas da disciplina de Didática Geral, estando baseadas nos princípios das teorias educacionais, e na utilização das inovações técnico-científicas, utilizadas como ferramentas pedagógicas que auxiliam a prática docente do professor de química. As postagens destes licenciandos fazem referência teórica ao artigo: “Reformas e realidade o caso do ensino das ciências” de Myrian Krasilchik, de críticas acerca do ensino de química na contemporaneidade, da utilização das redes sociais como ambientes formativos de professores, da utilização de softwares educacionais para o desenvolvimento de mapas conceituais e de reflexões acerca da própria práxis pedagógica. A telecolaboração foi o instrumental da coleta de dados desta pesquisa. A tecnologia aplicada a Educação e especificamente ao Ensino de Química, verte a possibilidade de interação momentânea ou não, na modalidade de Educação semi-presencial (telecolaboração). Sendo por tanto este instrumental utilizado entre os professores em formação através da dialogicidade comunicativa com o uso do computador e da internet.

Resultado e discussão

Os resultados aqui expostos fazem referências a cinco postagens telecolaborativas no AVA Facebook, dos professores de química em formação participantes da pesquisa. Duas destas postagens foram convertidas em mapas conceituais, com vistas a demonstração do desenvolvimento cognitivo. As três postagens telecolaborativas restantes estão expostas em forma de texto, em dois comentários para cada um dos três professores. Mapa conceitual 1, vide figura 1. O professor 1 durante sua formação docente, expressou o Ensino de Química contemporâneo em quatro grandes vertentes, à saber: I. Formação cidadã; II. Para a concepção de Ciência; III. Centrado na oralidade do professor (ensino tradicional) e IV. Para a Educação Química. A condução destas concepções do professor 1, remete ao pensamento de que a formação do professor de química é algo dinâmico e complexo, portanto sendo impensável a postura desta formação como algo simplório, reduzido a uma superficial apreensão de alguns conteúdos químicos e algumas técnicas de transmissão destes (COSTA et al, 2014). Outro ponto marcante desta postagem telecolaborativa é a formação cidadã. Sobre o assunto os PCN de Química postulados inicialmente no ano de 1999, descrevem que o conhecimento químico deve ser posto em prática pelos aprendizes desta ciência. A aplicação da composição da matéria, sua estrutura, os fenômenos naturais em ampla transformações na natureza, a energia envolvida nestas transformações, devem servir de base para que, educadores e educandos em química façam uma leitura interpretativa do mundo natural, social, cultural, político, econômico e ético. (BRASIL, 1999) Mapa Conceitual 2, vide figura 2. O ponto central fomentado na formação inicial da professora 2 foi a aprendizagem científica. Este termo é sintetizado a partir da educação científica oriunda de outro termo denominado de alfabetização científica por Cachapuz et al (2011). A educação científica trabalhada como princípio teórico-metodológico no ensino de química induz aos alunos, enquanto aprendizes iniciais desta ciência, a utilizar o processo de conversão da informação científica e tecnológica, em conhecimento químico. Este processo disponibiliza a estes alunos opções de tomada de decisão frente à situações problemáticas do seu próprio cotidiano rotineiro. Assim é promulgado um ensino de química contextualizado. Postagens telecolaborativas referente ao professor 3 1ª postagem “O artigo, reformas e realidade, mostra um pouco da historia de alguns sistemas de ensino ao redor do mundo. Revela ainda como o nosso sistema brasileiro de ensino recebeu influencias destes outros. Um exemplo disto pode ser visto no desenrolar das guerras, mesmo que sendo injustificável a sua ocorrência, pode ser refletido em um aspecto positivo, o investimento em conhecimento científico e consequentemente no ensino das ciências”. 2ª postagem “O mapa conceitual pode ser uma boa ferramenta em sala de aula, pois possibilita que o aluno enxergue todo o conteúdo de forma mais simplificada, podendo ainda fazer ligações com outros conteúdos”. A 1ª postagem do professor três mostra como alguns fatos históricos contribuíram com a evolução do conhecimento científico, e por consequência do ensino das ciências naturais. Tal fato deve ser considerado como necessidade formativa do professor de química em formação inicial, haja vista que, a história da ciência e do seu ensino, é uma história humana, na qual estão intrínsecos elementos da humanidade, dos contextos históricos e até mesmo momentos políticos, sociais, econômicos, culturais e éticos. (SILVA, 2010) Postagens telecolaborativas referente ao professor 4 1ª postagem “A Química é uma ciência que está constantemente presente em nossa sociedade, em produtos consumidos, em medicamentos e tratamentos médicos, na alimentação, nos combustíveis, na geração de energia, nas propagandas, na tecnologia, no meio ambiente, nas consequências para a economia e assim por diante. Portanto, exige-se que o cidadão tenha o mínimo de conhecimento químico para poder participar na sociedade”. 2ª Postagem “Segundo uma resenha de Silva disponível na Internet em: http://nead.uesc.br/arquivos/pedagogia/projetos_educacionais/Mapas_Conceitua is_no_Processo_de_Ensino.pdf, os mapas Conceituais são estruturas esquemáticas que representam conjuntos de ideias e conceitos dispostos em uma espécie de rede de proposições, de modo a apresentar mais claramente a exposição do conhecimento e organizá-lo segundo a compreensão cognitiva do seu idealizador”. A participação do cidadão como ser capaz de entender o seu entorno e por conseguinte influenciá-lo, parte pela premissa de que este ser social deve ter um conjunto de habilidades e competências adquiridas ao longo de sua Educação. Fatores que o cerca no dia a dia, tais como: a medicina, o consumo de produtos, a utilização de energia, a tecnologia e o meio ambiente, necessitam de uma adequada intepretação, para a melhoria da qualidade de vida deste cidadão e de outros de sua convivência. (BRASIL, 1999) Postagens telecolaborativas referente ao professor 5 1ª Postagem “O ensino de química é importante para o desenvolvimento do aluno, para que ele possa interagir em torno de seu próprio meio social. Assim, haverá conhecimento do que acontece em seu contexto em relação as inovações científicas e tecnológicas”. 2ª Postagem “Os Mapas conceituais são representações gráficas, constituídas por um conjunto de conceitos, que interligados por frases, apresentam funções estruturantes e exercem papel fundamental no desenvolvimento cognitivo. Esse método facilita bastante na aprendizagem por ser uma forma fácil de se compreender e utilizar esta ferramenta”. Pela postagem 1 do professor 5, percebe-se a forte relação que há entre a ciência e a tecnologia, sendo portanto o ensino de química um grande responsável de estabelecimento deste elo. A história da química é dotada de sínteses das mais diversas tecnologias, tais como: o princípio ativo dos medicamentos, a fabricação de produtos duráveis e não duráveis, alguns processos industriais de larga escala, a utilização de elementos químicos no fomento dos microprocessadores, a logicidade da comunicação, entre outros. Um dos conceitos de tecnologia é, qualquer objeto ou mecanismo acessível a operacionalização, sintetizado a partir da engenhosidade do cérebro humano, que contribua com a sua melhoria de qualidade de vida. (KESNKI, 2007) Portanto este conceito está ligado aos pressupostos epistemológicos da Químia como ciências, sendo portanto inevitável a utilização dest na contextualização do ensino. A 2ª postagem dos professores 3, 4 e 5, fazem referencia a utilização de mapas conceituais como metodologia de ensino de química. Para Brum e Schuhmacher (2012), a utilização de mapas conceituais favorece o desenvolvimento cognitivo de alunos, no caso desta pesquisa de professores em formação. Segundo estes pesquisadores, o desenvolvimento cognitivo dos que fazem uso do mapeamento conceitual, passa pelo relacionamento da nova informação com a informação prévia, causando através deste processo a evolução desta última em conhecimento.

Mapa conceitual 1

Referentes as postagens telecolaborativas do professor 1

Mapa conceitual 2

Referente as postagens telecolaborativas da professora 2

Conclusões

Deste trabalho conclui-se que o ensino de química atual que se responsabilize com o desenvolvimento cognitivo dos aprendizes desta ciência, deve estar estruturado dentro dos parâmetros da Didática das Ciências. Neste aspecto o planejamento pedagógico-didático, deve ser idealizado e desenvolvido com responsabilidade, para que ações químico-educacionais tenham respaldo para os alunos e significado para os professores. A telecolaboração pode ser uma estratégia metodológica útil no ensino de química, haja vista que aliada ao mapa conceitual, promove a evolução cognitiva tanto dos alunos quanto dos professores. Em clima de cooperação estes professores de química em formação inicial desenvolveram um planejamento didático tanto individual (autodidata), quanto coletivo (colaborativo), o que facilitará futuramente o exercício profissional do magistério. Outro fator marcante deste trabalho foi a formação docente interdisciplinar, pois estes cinco professores de Química, participaram de coletivos de ajuda mútua em docência, com outros professores de Matemática, Físico e Biologia. Espera-se com o desenrolar deste fato, a promoção de um ensino de química interdisciplinar que corrobore com a ruptura de um ensino fragmentado, que não leva em consideração as especificidades contributivas de cada ciência na fomentação de um corpo comum e geral de conhecimento cientifico. Espera-se, portanto o surgimento de novas pesquisas que atestem para a evolução cognitiva de professores de química em formação inicial. Esse aponte deve se fazer presente no planejamento didático das aulas a serem promovidas com o ensino de química, dando ensejo também a síntese de novos parâmetros curriculares que ressignifiquem esta atividade docente específica.

Agradecimentos

Ao meu Deus, pelo que Ele é e não somente pelo que faz. Ao meu orientador o Profº Dr. Ossian Gadelha pelas contribuições significativas e ao PPGE-UECE.

Referências

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